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Este ensaio apresenta algumas considerações sobre o processo de modernização das cidades e sua influencia na arquitetura a partir do filme Mon Oncle, do diretor francês Jacques Tati.

english
This text presents some considerations about the process of modernization of the cities and their influence on architecture from the film Mon Oncle by the French director Jacques Tati.

español
Este ensayo presenta algunas consideraciones sobre el proceso de modernización de las ciudades y su influencia en la arquitectura a partir de la película Mon Oncle, del director francés Jacques Tati.

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FELTRIN, Rodrigo Fabre. Arquitetura, cidade e modernidade. Considerações a partir do filme Mon Oncle, de 1958. Resenhas Online, São Paulo, ano 18, n. 199.04, Vitruvius, jul. 2019 <http://mail.irmaosguerra.com/revistas/read/resenhasonline/18.199/7067>.


Vive-se um período onde “ser moderno” se tornou uma necessidade, ser moderno é bom, é estar conectado com o mundo, é estar por dentro de todos os assuntos, é propagar informações online rapidamente, entre outras ações caracterizadas como ‘modernas’. A sociedade contemporânea “é marcada pela aceleração da tecnologia que resultou na fabricação de muitos bens de consumo, facilmente descartáveis, substituíveis. Vivemos o tempo da efemeridade que influencia a vida cotidiana das pessoas” (1). Nesse desejo de ser moderno, “a cidade aparece como sinônimo do progresso em relação ao campo” (2).

Entretanto, essa discussão a certa da modernidade não se restringe aos dias atuais. Aqui, trataremos a modernidade como o estilo de vida e a organização social que se inicia na Europa a partir do século XVII e que toma maiores proporções pós Segunda Guerra (3). Neste ensaio, tratarei de questões sobre a modernidade e também apontamentos a respeito do processo de modernização das cidades, sendo que o raciocínio para tal foi montado a partir da obra cinematográfica Mon Oncle, de 1958.

O filme foi concebido e dirigido pelo cineasta francês Jacques Tati, que também atua no longa como o Monsieur Hulot, tio do jovem Gerard que é filho da sua irmã. É uma produção audiovisual que nos mostra claramente a dualidade presente no modo de perceber a cidade e seu processo de modernização através da arquitetura, da arte e do design.

A cada cena, fica evidente o contraste entre o racionalismo controlado do modernismo e a liberdade e autonomia das cidades tradicionais. “Na mise-em-scene (4) das obras de Tati calcou-se um referencial visual sobre modernidade e anos 50 através dos objetos e dos edifícios criados para as produções” (5). O filme nos mostra também, por parte dos pais do menino Gerard, um desejo explícito em ser moderno e ser adepto a todas as tecnologias ‘modernas’.

Modernismo, modernidade, modernização. São termos que frequentemente aparecem em diversos textos e que num primeiro momento pode se associar com algo a frente do seu tempo, ser além do que se é hoje, sempre com uma visão positivista. Mas afinal, o que é ser um homem moderno? Ser um homem moderno é encontrar-se numa fronteira. É estar em um ambiente que promete autotransformação e transformação das coisas em redor – mas ao mesmo tempo ameaça destruir tudo o que temos e o que somos.

O filósofo americano Marshal Berman (6), no prefácio da sua obra Tudo que é sólido desmancha no ar, define que:

“Ser moderno é viver uma vida de paradoxo e contradição. É sentir-se fortalecido pelas imensas organizações burocráticas que detêm o poder de controlar e frequentemente destruir comunidades, valores, vidas; e ainda sentir-se compelido a enfrentar essas forças, a lutar para mudar o seu mundo transformando-o em nosso mundo. É ser ao mesmo tempo revolucionário e conservador” (7).

Na obra de Jacques Tati, esse paradoxo aparece constantemente. Podemos comparar inicialmente, o contexto das moradias que aparecem como cenário principal do filme: o cortiço e a casa modernista. Ambas são resultado de uma síntese das características identificadas por Tati que representasse a informalidade e apropriação da cidade tradicional e o racionalismo cartesiano da modernização.

Monsieur Hulot mora em um pequeno apartamento (onde o interior dele não é mostrado ao espectador) que fica no último andar de um velho cortiço, um edifício histórico que remete a um sobrado, onde foi adaptado e conectado com um outro edifício de maneira informal, desconsiderando qualquer planejamento arquitetônico e composição racionalista em desacordo com a estética modernista que começava a se manifestar.

Cortiço apresentado em Mon Oncle
Foto divulgação

Já o seu sobrinho, Gerard, mora com os pais na Villa Arpel, uma residência puramente modernista tanto nas linhas arquitetônicas da construção, quanto na do mobiliário e na tecnologia dos equipamentos. É um edifício de dois pavimentos com ambientes integrados entre si e conectados com o jardim, que também segue a linguagem modernista. Suas fachadas são livres de qualquer adorno, sem nenhuma referência história, dando destaque a grandes superfícies lisas na cor branca, rasgos pontuais em formas geométricas que servem de porta e/ou janela, com um único ponto de cor azul num brise-soleil vertical. Um exemplo fiel do modernismo na arquitetura e urbanismo.

Esse edifício é a síntese da mercadoria consumida pelo homem moderno. Ao assistir Mon Oncle, a Villa Arpel é o que poderíamos chamar de casa do futuro. A concepção dessa casa totalmente automatizada, repleta de botões, alavancas e mecanismos quase “robôs” faz parte do imaginário social presente da década de 1950. As campanhas publicitárias da época já transmitiam essa visão tecnológica do futuro enfatizando a praticidade e economia de tempo nos afazeres da casa, como podemos perceber em várias cenas do filme. Dessa maneira, as grandes marcas agregavam valor ao moderno e, consequentemente, aumentavam a procura e a produção desse mercadoria futurista.

Villa Arpel, a casa modernista de Mon Oncle
Foto divulgação

Berman define essa mercadoria como sendo “tudo o que é sólido”. Roupas, carros, casas, edifícios, bairros, cidade. Tudo que pertence ao sujeito e que pode sofrer alterações mediante a ação dele. Para o autor, “tudo isso é feito para ser desfeito amanhã, (...) a fim de que possa ser reciclado ou substituído na semana seguinte e todo o processo possa seguir adiante (...) sob formas cada vez mais lucrativas” (8).

Ainda, o sociólogo britânico Anthony Giddens ao falar das consequências da modernidade, aponta que uma das características principais da modernidade é a velocidade da mudança. O ritmo desenfreado dessa mudança é o que serve de gatilho pra modernização. Essa velocidade vai afetar não o só o homem moderno, mas também tudo que é “sólido”, conforme definiu Berman. A partir da modernização, observamos um novo contexto: uma nova sociedade e uma nova paisagem, o lugar da experiência moderna.

Marshall Berman define esse contexto moderno como um caráter essencialmente fabril: fábricas automatizadas, novas áreas industriais, cidades que cresceram repentinamente, meios de comunicação em massa, produção desenfreada e uma crescente valorização do consumo. Essa definição de Berman vai ao encontro do que o escritor francês Guy Debord chamaria de espetáculo. Debord (9) chama de espetáculo as relações sociais que se fundamentam por meio das imagens, característica evidente da produção moderna. O espetáculo é “o modelo presente da vida socialmente dominante. Ele é a afirmação onipresente da escolha já feita na produção, e no seu corolário – o consumo” (10). Ainda, o autor diz que o espetáculo é “o mau sonho da sociedade moderna acorrentada”, evidenciando o paradoxo que vimos em Berman. Para Debord, é o fetichismo pela mercadoria que irá submeter a sociedade ao domínio moderno.

O período temporal do filme é final dos anos 1950, época em que a Europa passa por um período de reconstrução pós Segunda Guerra. Essa reconstrução atravessa os limites da arquitetura, é o processo de apropriação de uma nova identidade que vista o futuro como solução para esquecer o passado. Como comenta Huyssen (11), a característica que fundamentou as primeiras décadas da modernidade do século XX foi o privilégio que se dava ao futuro. A cultura modernista vai reforçar um ideal de recomeço aliado a um otimismo obviamente forçado para superar as atrocidades da Segunda Guerra. Huyssen ainda diz que a modernidade se firma no conceito de “futuros presentes”, noção que se tem a partir da obra de Koselleck, mas que logo no começo dos anos 1980, esse futurismo obsessivo dá lugar a uma busca incessante ao passado.

À frente, as ruínas da cidade tradicional. Ao fundo, os edifícios da cidade moderna
Foto divulgação

Esse ideal de progresso e recomeço é prontamente associado ao higienismo e ao racionalismo, duas características que são evidentemente percebidas na estética modernista, principalmente na arquitetura e no urbanismo modernos. As linhas retas e formas brancas puras, que vem como resquícios da Bauhaus ganham força total na arquitetura das cidades. O espaço urbano é visto como uma indústria, setorizando as atividades e conectando-os como um processo de produção.

O diretor “demonstra como a demolição e a higiene são basilares no processo de criação e manutenção de um conceito de vida moderna, também ela desconstruída pela sátira do realizador durante a estruturação das suas narrativas” (12). O filme retrata esse momento com maestria mostrando, no desenrolar das peripécias do protagonista, as demolições sendo feitas e as ruínas da guerra em paralelo às novas construções com todo aparato tecnológico possível.

Percebemos esse processo de modernização da cidade como um roteiro coadjuvante à história de Gerard e seu tipo. No filme, o diretor retrata essa dualidade a partir do que teoricamente estariam divididas e separadas por o que sobrou de um muro. A dualidade é apresentada pelo diretor a partir de perspectivas diferentes, desde o sentimento do habitante até o conjunto urbano.

Garagem da Villa Arpel: espaço privilegiado e específico do automóvel
Foto divulgação

Ao longo do filme nota-se algumas cenas onde a substituição dos prédios antigos pelos novos aparece como pano de fundo para o desenrolar do enredo. A residência, o clube e a fábrica possuem a mesma linguagem arquitetônica, as mesmas cores, a mesma linha de mobília, espaços de estacionamento para os automóveis e uma grande área asfaltada, características evidentes da arquitetura moderna.

Segundo Anthony Giddens (13), a modernização das cidades se fundamenta no discurso de que “os modernos assentamentos urbanos frequentemente incorporam os locais das cidades tradicionais, e isto faz parecer que meramente expandiram-se a partir delas.” Mas, em tempo, o autor identifica que “na verdade, o urbanismo moderno é ordenado segundo princípios completamente diferentes dos que estabeleceram a cidade pré-moderna em relação ao campo em períodos anteriores”. Ou seja, a cidade moderna cerca a cidade tradicional sem estabelecer nenhuma relação entre as diferentes épocas, quando não a substitui totalmente.

O contexto modernista vai além do espaço urbano, dos muros das novas residências e das linhas retas, era um novo estilo de vida associado diretamente a tecnologias e desapego a referências de períodos anteriores. O dualismo é evidenciado através do personagem Gerard, o menino que ainda está na escola e segue as recomendações dos pais. O menino é o elo que representa a conexão entre esses dois mundos distintos. A aproximação entre Gerard e seu tio, Monsieur Hulot, aumenta com o desenrolar da história até o ponto em que uma crise familiar é estabelecida por conta da influência dos hábitos do tio sob a educação do menino. O pai do garoto percebe que o estilo de vida de Hulot encanta o filho e que o trabalho rotineiro e fordista na fábrica plásticos do pai não é um atrativo.

Monsieur Hulot e Gerard na cidade tradicional
Foto divulgação

Arpel se desloca da casa para o trabalho e do trabalho para casa de carro, por rodovias asfaltadas ininterruptas, diferente de Hulot que se movimenta a pé ou de bicicleta através das calçadas, praças, vizinhança, estabelecendo contatos e trocas sociais. Ou seja, a vida modernista da família de Arpel os segrega de todo o contexto urbano e social da cidade, que é o espaço de integração entre os sujeitos, que percebemos no dia-a-dia do Monsieur Hulot.

Numa síntese entre as ideias de Durkheim, Weber e Marx a respeito do trabalho moderno, Giddens (14) aponta que os três citados perceberam que a dinâmica do labor industrial moderno traz consequências ao sujeito, submetendo-os ao trabalho repetitivo e a produção serial, bem como a criação de uma rotina automatizada, como é retratado o personagem de Arpel.

Está presente na obra de Tati, a sua interpretação da modernidade refletida na arquitetura, na urbe e na sociedade. Observa-se características que deixam claro a imposição de uma sociedade global e internacionalizada, ignorando a localidade e o regionalismo, mas que vivem isoladas em bolhas cercadas (como a Villa Arpel). É uma união de indivíduos solitários num contexto de produção em massa, é querer ter controle absoluto de algo que não se pode ter.

notas

1
FELTRIN, Rodrigo Fabre. Praça Nereu Ramos: núcleo inicial da cidade como lugar de memória. Anais do Simpósio Científico 2017 Icomos Brasil. Belo Horizonte, Instituto Metodista Izabela Hendrix, 2017. Disponível em: <https://even3storage.blob.core.windows.net/anais/60333.pdf>.

2
MATOS, Maria Izilda Santos de. Na trama urbana: do público, do privado e do íntimo. Revista Projeto História, n. 13 (Cultura e Cidade). São Paulo, Educ, 1996, (p. 129-149) p. 133.

3
GIDDENS, Anthony. As consequências da modernidade. São Paulo, Editora Unesp, 1991. Tradução de Raul Fiker.

4
Direcionamento, em francês.

5
FOLEGATTI, Luiza Geraldi; SCHIAVINATTO, Iara Lis Franco. As cidades de Jacques Tati: Novas relações sócio-técnicas presentes na década de 50. Cordis, revista de história, arte e cidades, n. 6, jan./jun., p. 333-366, 2011 <https://revistas.pucsp.br/index.php/cordis/article/viewFile/10307/7694>.

6
BERMAN, Marshall. Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. São Paulo, Companhia das Letras, 1986. Tradução de Carlos Felipe Moisés e Ana Maria L. Ioriatti.

7
BERMAN, Marshall. Op. cit., p. 13.

8
BERMAN, Marshall. Op. cit., p. 97.

9
DEBORD, Guy. A Sociedade do Espetáculo. Rio de Janeiro, Contraponto, 1997.

10
DEBORD, Guy. Op. cit., p. 15.

11
HUYSSEN, Andreas. Seduzidos pela memória. Rio de Janeiro, Museu de Arte Moderna, 2000.

12
MARTINS, Rita Isabel Soares de Souza. A arquitetura do movimento moderno na obra cinematográfica de Jacques Tati (1907-1982). Dissertação de Mestrado. Porto, Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, 2013, p. 109.

13
GIDDENS, Anthony. Op. cit., p. 12.

14
GIDDENS, Anthony. Op. cit.

sobre o autor

Rodrigo Fabre Feltrin é arquiteto e urbanista. Professor e coordenador do curso de Arquitetura e Urbanismo da Escola Superior de Criciúma – ESUCRI. Especialista em História e Cidade: Patrimônio Cultural e Ambiental. Mestrando em Educação no PPGE – Unesc. Idealizador do blog História e Cidade.

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