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drops ISSN 2175-6716

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A morte do pintor e artista gráfico Almir Mavignier, ocorrida no dia seguinte ao incêndio que destruiu o Museu Nacional, passou despercebida. Rodrigo Queiroz presta homenagem a esse importante artista moderno brasileiro.

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QUEIROZ, Rodrigo. Almir Mavignier e a construção pictórica do imaginário. Do Engenho de Dentro à Escola de Ulm. Drops, São Paulo, ano 19, n. 132.03, Vitruvius, set. 2018 <http://mail.irmaosguerra.com/revistas/read/drops/19.132/7104>.



Eclipsada pelo incêndio que destruiu o Museu Nacional na noite do último domingo, a morte do artista Almir Mavignier (1925/2018), ocorrida no dia seguinte à tragédia, passou praticamente despercebida no noticiário.

Mavignier ocupa um lugar particular na história da arte moderna brasileira. Explico. A leitura cronológica das fases de Mavignier pode se confundir com as de outros artistas do período ou até mesmo de uma geração anterior: inicia sua trajetória na figuração, se distancia da espacialidade naturalista ao flertar com a abstração lírica ou informal, e se estabelece na abstração construtiva ou geométrica, uma fase mais duradoura e constante.

Se esse processo cronológico de modificação da linguagem em direção à síntese não é uma particularidade de Mavignier, sua relação com a experiência pictórica e plástica em si revela-se de maneira surpreendente no seu papel como educador pioneiro na atividade artística como terapia ocupacional. Em 1946, juntamente com a médica e psiquiatra Nise da Silveira, o artista abre um ateliê de pintura e modelagem na seção de Terapêutica Operacional do Hospital Psiquiátrico do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro.

A aproximação entre arte e uma realidade alternativa a um meio socialmente aceito é uma motivação recorrente na arte moderna, principalmente em sua vertente não objetiva, como o Dadá, o Expressionismo ou outras manifestações de caráter primitivista. Em certa medida, poderíamos dizer que a relação de troca entre Mavignier e os artistas internados no Engenho de Dentro permitiu experimentar justamente os limites de um fazer artístico dissociado de um ambiente cultural e histórico capaz de condicioná-lo. Nada mais moderno, eu diria. Não fosse o ateliê de Mavignier e Nise da Silveira, artistas como Raphael Domingues e Emygdio de Barros, hoje conhecidos, talvez sequer aflorariam como tais.

Poderíamos dizer que o interesse de Mavignier pelo fazer como ação resultante da extroversão de uma absoluta e secreta interioridade tenha levado o artista a uma produção abstrato-construtiva específica, impossível de ser compreendida pela operação entre planos típica do movimento concretista, por exemplo.

Sem negar as referências de artistas como Max Bill e Josef Albers, Mavignier elabora uma abstração geométrica baseada na manipulação do ponto como entidade gráfica e pictórica capaz de insinuar relevo, profundidade e textura conforme o observador se posta em relação ao quadro, a partir de um necessário movimento de aproximação e distanciamento. A relação entre pontos e suas diferentes dimensões (ora separados, ora tangentes, ora parcialmente intersecionados uns aos outros) nas pinturas de Mavignier faz lembrar, de imediato, a retícula gráfica de uma fotografia impressa em jornal vista com uma lente de aumento: quando observada de perto, não se distingue seu conteúdo, que se revela aos poucos conforme nos afastamos. Tal descrição poderia aproximar erroneamente Almir Mavignier e Roy Lichenstein. Porém, vale lembrar que o assunto de Lichenstein é o próprio universo da impressão gráfica de desenhos como os de história em quadrinhos. Desse modo, os planos de Lichenstein são chapados, não havendo variação dimensional dos pontos da retícula, solução gráfica capaz de insinuar luz, sombra e relevo, esses sim efeitos identificados na obra de Mavignier.

Os pequenos pontos circulares, equidistantes entre si e com cores alternadas, comuns nas obras do artista, atingem o resultado almejado quando o observador se posiciona suficientemente longe da obra a ponto de sua retina fusionar os dois pontos de cor em uma cor só, uma terceira cor aliás.

Sim, poderíamos compreender a obra de Mavignier como uma produção pertencente à lógica da Op Art (Optical Art ou Arte Óptica), mas certamente não podemos inclui-lo na materialidade espacial vibrante que identifica obras de artistas como Abraham Palatnik, Jesus Rafael Soto e Carlos Cruz-Diéz. O uso da retícula circular (e não da linha, como no caso dos últimos três artistas citados) faz com que a ilusão de profundidade “op” percebida nas pinturas de Mavignier seja algo imprecisa, quase atmosférica.

Desde sua ida para a Alemanha, em 1954, para estudar no Curso de Comunicação Visual na Hochschule für Gestaltung (Escola Superior da Forma), na cidade de Ulm, Mavignier nunca mais retornou em definitivo para o Brasil, realizando atividades como pintor e programador visual (design gráfico) e naturalizando-se alemão em 1981.

As duas principais escolhas de Almir Mavignier como lugar de ação, o Hospital Psiquiátrico do Engenho de Dentro e a Escola de Ulm, por si só já são reveladoras da radicalidade de um artista que conscientemente decidiu experimentar os dois extremos que definem o campo da própria arte moderna: o irracional e o racional; a intimidade dubitativa do gesto e a certeza da retícula e do ponto.

nota

NE – texto publicado originalmente na página facebook do autor.

sobre o autor

Rodrigo Queiroz é arquiteto (FAU Mackenzie, 1998), licenciado em Artes (Febasp, 2001), mestre (ECA USP, 2003), doutor (FAUUSP, 2007) e professor livre-docente do Departamento de Projeto da FAU USP. Curador de exposições de arquitetura moderna, tais como “Ibirapuera: modernidades sobrepostas” (Oca, 2014/2015), “Le Corbusier, América do Sul, 1929” (CEUMA, 2012), “Brasília: an utopia come true” (Trienal de Milão, 2010) e “Coleção Niemeyer” (MAC USP, 2007/2008).

 

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132.03 homenagem
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