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drops ISSN 2175-6716

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Mauricio Segall, intelectual brasileiro recém falecido, recebe homenagem do cineasta Roberto Gervitz, seu amigo desde a infância e que o considerava um segundo pai.

como citar

GERVITZ, Roberto. Mauricio Segall. Meu último pai morreu. Drops, São Paulo, ano 18, n. 119.01, Vitruvius, ago. 2017 <http://mail.irmaosguerra.com/revistas/read/drops/18.119/6626>.



Viajei tenso e emudecido aquelas três horas que ligavam Campos de Jordão a São Paulo, depois de acordar com a notícia da morte repentina de meu pai, aos 46 anos de idade. Durante toda a viagem tentava em vão organizar o turbilhão de pensamentos e emoções difíceis de suportar aos meus dezesseis anos.

Ao chegar ao cemitério onde já estavam quase todos os amigos e conhecidos de meus pais, eu senti como se tivesse algodão nos ouvidos, os sons amortecidos e abafados por uma confusão interior que sequer me permitia sofrer. Buscava localizar meus dois irmãos e minha mãe, o que restara de minha já reduzida família em São Paulo, sem saber o que diria para confortá-los quando os encontrasse. Como filho mais velho, temia pelo futuro das nossas vidas, pois vivíamos quase que unicamente do que o meu pai recebia como assalariado. A angústia acelerava as preocupações.

Caminhava sentindo o peso de um mundo que de uma hora para a outra se desfizera, meu corpo formigava desorientado, quando uma grande mão pousou em meu ombro. Era a mão de Maurício Segall, amigo de meus pais e pai do Sergio, o meu grande amigo desde os seis anos. Como se adivinhasse tudo o que se passava em minha cabeça, Tio Maurício, como o chamava desde a infância, andou comigo alguns metros que nos afastaram do aglomerado de pessoas e me disse como se falasse a um homem, já não mais um menino: "É muito injusto o que te aconteceu; você é muito jovem para viver isso. Fica tranquilo porque nada vai faltar para que você e os teus irmãos terminem os estudos".

O efeito daquelas palavras foi o de um imenso abraço, um acolhimento que eu nem sequer suspeitava que precisasse, voltei a sentir o chão sob os meus pés e vivi a tristeza de enterrar o meu pai. Seis meses mais tarde consegui chorar pela primeira vez em uma das periódicas visitas que ele fazia à nossa casa. Com Maurício Segall aprendi a generosidade, a integridade, a grandeza de lutar pela justiça e amar a natureza. Muito do que tive a oportunidade de conhecer devo a ele, e dessa forma, muito do que sou, também. Ele se tornou o meu segundo pai, um pai forte, infalível, que nunca morreria, mas que ao logo dos anos foi se humanizando aos meus olhos e a quem gostaria de ter expressado anda mais o meu afeto. Muitas vezes tomando uma boa cachaça ao final da tarde, na varanda de sua pequena casa de praia, adaptada de uma moradia caiçara, eu pensava que não poderia ser mais feliz...

PS – Esse depoimento íntimo, não pretendia dar conta da figura pública de Maurício Segall que implantou e desenvolveu o Museu Lasar Segall, foi importante produtor teatral com Beatriz Segall, no Teatro São Pedro, de espetáculos como Frank V, O Interrogatório, A Grande Imprecação Diante dos Muros da Cidade, A Longa Noite de Cristal, entre muitos outros, sempre montando espetáculos de resistência à ditadura. Escreveu peças, livros de poesias, excelentes ensaios sobre questões culturais, raciais e políticas. Lutou contra a ditadura e esteve preso durante um ano e meio em pleno governo Medici; participou da fundação do Partido dos Trabalhadores do qual posteriormente se afastou.

sobre o autor

Roberto Gervitz é diretor dos longas-metragens de ficção Feliz ano velho(1987), Jogo subterrâneo (2004) e Prova de coragem (2016). É também autor do documentário Braços cruzados, máquinas paradas, em parceria com Sérgio Toledo. Desenvolveu carreira como diretor de TV, em séries como Gente que faz e quatro episódios da série Carandiru, outras histórias.

 

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