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architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
Este artigo busca analisar as transformações hidrográficas que ocorreram em Águas de Lindóia, SP, a partir de meados da década de 1950. Serão analisados quatro projetos. A metodologia utilizou imagens aéreas de tempos distintos para comparação.

english
This paper seeks to analyze the hydrographic transformations that occurred in Águas de Lindóia, SP, from the mid-1950s’. Four projects will be analyzed. The methodology used aerial images of different times for comparison.

español
Este artículo busca analizar las transformaciones hidrográficas que ocurrieron en Aguas de Lindóia, SP, a partir de mediados de la década de 1950. Se analizarán cuatro proyectos. La metodología utilizó imágenes aéreas de tiempos distintos para comparación


how to quote

MAIA COSTA, Luiz Augusto; MANTOVANI, Samuel Machado. Os projetos modernos que alteraram a hidrografia da cidade de Águas de Lindóia SP, Brasil, 1950. Arquitextos, São Paulo, ano 18, n. 215.00, Vitruvius, abr. 2018 <http://mail.irmaosguerra.com/revistas/read/arquitextos/18.215/6936>.

Ao longo da história da formação de Águas de Lindóia, a cidade passou por inúmeras transformações em sua paisagem original devido à ação do homem sobre o espaço, principalmente no tocante à sua hidrografia. A implantação de importantes projetos urbanos na década de 1950 acelerou o desenvolvimento da estância hidromineral, organizando o território para atender à crescente demanda turística. Após esta década, com o aumento dos investimentos pela esfera pública e a necessidade de desenvolvimento do município que acabará de se emancipar politicamente em 1954, (1) quatro importantes intervenções urbanas, as quais modificaram o ambiente físico da cidade, exerceram interferência direta na produção do espaço edificado. O Balneário Municipal, a Praça Adhemar de Barros, a Represa do Cavalinho Branco e a Avenida das Nações Unidas reconfiguraram uma nova paisagem, redefiniram o sistema hídrico da cidade, e foram preponderantes para o desenvolvimento sócio espacial da estância.

O Novo Balneário, projetado pelo arquiteto Oswaldo Arthur Bratke com paisagismo de Roberto Burle Marx e mosaicos do artista plástico Lívio Abramo, executado entre 1954 a 1959, intensificou o caráter turístico da estância. Projetado com intuito de modernizar a estância, o edifício lâmina sobre pilotis retangulares fomenta localmente a onda modernista que vinha sendo desenvolvida no cenário nacional, trazendo o caráter moderno em arquitetura a qual a estância almejava para aquele momento de sua história.

Outras intervenções importantes foram a Praça Dr. Adhemar de Barros, projetada por Roberto Burle Marx e a obra de contenção para a Represa do Cavalinho Branco. Ambas interferiram diretamente no sistema hídrico da cidade. A primeira obra assume características de uma praça/parque, Burle Marx redesenha um novo lago sinuoso que tem função de contenção das águas proveniente das partes mais altas da cidade. Já a segunda obra, que também funciona como bolsão de contenção, teve sua dimensão de armazenamento de água aumentada com a nova barragem executada na década de 1970. As captações das águas provenientes das nascentes do Morro Pelado, ponto mais alto da cidade, fizeram o volume crescer e alagar uma área ainda maior. O local representa um ponto importante para o equilíbrio do sistema hídrico da cidade, localiza-se na cota mais alta e é preponderante na distribuição para as regiões mais baixas.

A canalização do Ribeirão Água Quente da Avenida das Nações Unidas finaliza as análises das intervenções principais ocorridas na cidade e que serão discorridas neste artigo. O córrego retificado entre as vias de automóveis percorre um longo percurso dentro da cidade e teve grande impacto na modificação do leito sinuoso do rio e na área de várzea que existia. Após este trajeto as águas que cortam o tecido urbano mais antigo de Águas de Lindóia desaguam no Rio do Peixe na cidade vizinha de Lindóia e seguem seu fluxo até desaguar no Rio Moji-Guaçu.

Metodologia

A princípio, antes de entrarmos na análise do objeto, explicaremos a metodologia utilizada neste trabalho. Basicamente ela se apropriou dos registros fotográficos do território, coletados em nossas pesquisas, e da historiografia oral, através de morados mais antigos, para reconstituir uma possível imagem aérea da cidade de Águas de Lindóia em meados de 1950; momento das intervenções principais no município, isto porque não havia planta ou mapa da cidade nesse período. Para edição foi utilizado um software específico e uma imagem satélite atual como base para o redesenho da imagem do território a partir dos documentos analisados, no caso, fotografias antigas do período e historiografia oral. Compreender as múltiplas interpretações transmitidas pela documentação fotográfica histórica e pelas pessoas residentes na cidade, atrelado a eficácia da análise do território pela imagem aérea, são os fatores preponderantes para esta metodologia.

A fotografia, importante documento para o historiador e que deixou de ser um mero instrumento ilustrativo de pesquisa para assumir status de documento, (2) quando registrada através de satélites permitem observar o território em uma posição privilegiada em que os espaços tornam-se mais visíveis, isto contempla uma acessibilidade ampla e melhor visualidade de regiões e cidades; este ângulo de observação permite uma análise urbana com muitos benefícios e que antigamente inexistia e não poderia ser explorado como método. Nos dias de hoje, este tipo de imagem admite estudos mais vastos e interpretativos, inclusive comparações históricas, já que com o confronto entre fotografias/imagens de diferentes épocas consegue-se avaliar as alterações ocorridas no território para observarmos os efeitos da atuação do homem e da natureza sobre o espaço.

Esta perspectiva diferente de visualização, por outro ângulo do espaço, corrobora para a identificação de fatores naturais e projetados que alteram regiões sistemicamente; no caso antrópico as edificações e zoneamento e no âmbito natural a ação química do ar e da água e a ação mecânica da chuva, vento, neve, calor, frio, entre outros; um “ciclo geográfico” que deforma as formas do relevo. (3)

Atualmente nota-se que os satélites artificias são os principais responsáveis pelo sensoriamento remoto e pela elaboração de imagens aéreas de diversos locais da superfície terrestre. O Google Earth é um programa computacional que possibilita um fácil acesso a estes tipos de imagens e nos leva através de uma simples tela de computador a conhecer através dos registros fotográficos do programa a muitos locais do planeta, de forma prática e dinâmica. Esta importante ferramenta permite também a busca por registros aéreos em diferentes períodos da história colaborando para as análises temporais que apontam indícios de alternância na paisagem, bem como as características peculiares do território. Deste modo, contribui para constatação das alterações entre a mesma região durante o passar do tempo. Neste software, algumas cidades possuem registros antigos, fotografias de décadas do século passado; no caso de nosso objeto de estudo, Águas de Lindóia, o primeiro registro aéreo no Google Earth data de 2005, isto levando em consideração o Software em janeiro de 2017.

Desta forma, se fez importante à reconstituição da imagem aérea da cidade em meados da década de 1950 para a compreensão e análise territorial do momento das intervenções que alteraram a hidrografia. Esta imagem produzida pelos autores possibilitou um melhor entendimento de elementos para além do sistema hídrico, como o tecido urbano, o sistema viário, as tipologias urbanas e a paisagem, entre outros elementos, daquele período. Isto nos fez identificar nesta época, através das evidências levantadas, uma cidade tipicamente rural em processo de transformação, se preparando para uma nova fase, urbana, modernista e “progressista”. Logo, este momento “prenuncia mudanças de comportamento e valores que irão marcar os anos 60”. (4) As intervenções urbanas após os anos cinquenta em Águas de Lindoia nortearam o desenvolvimento da mesma até os dias atuais e condicionaram nossa análise na constatação de elos comparativos do momento anterior aos projetos supracitados para o momento depois destes; transformações que consolidaram e modificaram a estância hidromineral.

Imagem satélite da cidade de Águas de Lindóia. Ano 2015
Imagem divulgação [Google Earth]

Para tal, a imagem aérea de Águas de Lindóia em meados da década de 1950, foi elaborada em quatro fases. A primeira corresponde à identificação do período histórico que melhor evidenciaria os fatos que almejávamos reconhecer e analisar, do qual constatamos que o período ideal para elaboração da referida imagem seria em meados de 1950. A segunda etapa foi à elaboração de uma imagem satélite atual da área de estudo em alta resolução para compreender o território atualmente e usá-la como base de edição para a imagem do período anterior. A terceira etapa envolve a coleta dos dados primários e a organização destes de modo a facilitar a consulta quando necessário durante o processo de edição e a comparação com a imagem satélite atual. A última etapa envolveu o trabalho artesanal de produção da imagem do período em questão utilizando software específico de edição de imagens, buscando uma representação mais próxima possível da realidade daquela época e deixando um registro de um tempo distante fundamental para a transformação de Águas de Lindoia Rural em Moderna.

Reconstituição da imagem aérea da cidade de Águas de Lindóia. Meados da década de 1950.
Imagem divulgação [Google Earth]

Águas de Lindóia e a década de 1950

Águas de Lindóia, cidade do interior de São Paulo e que faz divisa com Minas Gerais (Figura 03), teve seu início no século XVII, época com grande fluxo de colonizadores penetrando pelo sertão adentro nas terras que ligavam o litoral paulista as minas de Goiás. (5)  Em nove de Agosto de 1728, o Sr. Manuel de Castro, morador da cidade de Santos, recebeu como doação uma “Sesmaria” concedida pelo governador e Capitão General da Capitania de São Paulo e Minas do Paranapanema, Cuiabá e Guianazes, Antônio da Silva Caldeira Pimentel, batizada de “Águas Quentes”. (6) Denominação dada pelos bandeirantes e tropeiros, que utilizavam a água para tratar dos ferimentos das viagens e para ingestão e adotaram o território como ponto estratégico para pouso, descanso e cuidar dos ferimentos de suas longas viagens. Eles foram os principais responsáveis por iniciar a propagação das águas que aí brotavam para outras regiões, bem como os primeiros a usufruírem de suas propriedades medicinais. (7)

Inserção urbana de Águas de Lindóia (demarcação em azul) no Estado de São Paulo (SP), próximo à divisa com o Estado de Minas Gerais (MG) (demarcação em amarelo). Edição realizada pelos autores
Imagem divulgação [Google Earth]

Durante a primeira metade do século 20 a cidade começou a ser conhecida nacionalmente pelas propriedades termais de sua água, a região vivenciou um acentuado processo de expansão urbana e apropriação dos espaços livres desde então que culminou em grandes intervenções urbanas a partir da década de 1950. Este momento histórico condiciona o período escolhido para a elaboração da imagem aérea editada. A referida possibilitou compreender as transformações hídricas de Águas de Lindóia e observar o desenvolvimento do tecido urbano ao longo das décadas seguintes. Ambas as imagens aéreas, quando comparadas, contribuem para melhores análises e sínteses do território em dois momentos, antes e depois dos projetos responsáveis por transformar a estância hidromineral em uma cidade com atributos de uma arquitetura e urbanismo modernos.

A fotografia e a historiografia oral

Duas importantes fontes utilizadas para a reconstituição do território foram à fotografia, que permitiu um resgate da fisionomia e imagem da cidade, e a historiografia oral que abriu um leque de observações e análise de locais que as imagens inexistiam. Fizemos uma varredura em diversos locais, na biblioteca, prefeitura, com morados mais antigos, na internet, entre outros, em busca de dados brutos e registros de imagem da cidade, assim como a identificação e cópia de material iconográfico sobre o tema. O mesmo possibilitou a formação de um banco de dados. Salienta-se que a varredura feita na internet foi extremamente criteriosa a fim de evitar sites de confiabilidade duvidosa; esses dados colhidos foram confrontados com outras fontes, como as informações orais, de modo a conferir maior credibilidade à informação e a veracidade do registro fotográfico.

Perspectiva de Águas de Lindóia, em meados da década de 1950
Imagem divulgação []

Podemos observar como existiam poucas construções apesar da grande quantidade de vias. Entretanto, algumas imagens coletadas não compreendiam o território como a referida fotografia, dessa maneira, fizemos uso da historiografia oral, para entender melhor alguns espaços não registrados pelas fotografias obtidas. As informações de moradores antigos elucidaram e esclareceram algumas regiões, vias, matas e construções, que não tínhamos conhecimento, além de confirmar as informações e os períodos que as fotografias coletadas se apresentavam.

Aliando a fotografia como fonte história e a historiografia oral, reconstituímos com acentuado grau de precisão as regiões próximas ao Balneário Municipal, à atual Praça Adhemar de Barros, os loteamentos que surgiram naquele período e as estradas que interligavam os municípios vizinhos, bem como sua estrutura física. As regiões mais distantes deste cenário possuíam poucos ou quase nenhum registro fotográfico e para caracterizar este local foi estabelecida apenas a historiografia oral. Dessa maneira as regiões fotografadas tiveram um maior grau de precisão da realidade, caracterizando a imagem elaborada pelos autores em três diferentes graus de precisão. O Grau 01 para a região da imagem que praticamente estabelece uma construção da paisagem muito próxima da realidade daquele período e leva em consideração as fotografias e a historiografia oral como bases de referências para a edição da imagem; o Grau 02 para a região que estabelece uma relação com poucas fotografias, com poucos ângulos de percepção territorial e a historiografia oral, e o Grau 03, que não tem grau de precisão tão elevado, pois caracterizasse por uma região distante dos registros fotográficos e que conta apenas com informações de moradores, do qual utilizamos um desenho mais genérico.

Para a região Grau 02 e Grau 03, foi estabelecido critérios para a reconstituição da imagem que envolve hipóteses sobre a paisagem natural, ou seja, das matas, planícies e plantações, principalmente baseadas segundo dados visuais do relevo e a historiografia oral. A região que fundamenta a análise principal é a pertencente ao Grau 01, que envolve as áreas de maior confiabilidade, que compreende as regiões historicamente fotografadas, por se tratar do início da estância, e com maior investimento público e privado, refletindo nos principais projetos de intervenção para a cidade que geralmente eram fotografados.  

Grau de precisão adotado para elaboração da imagem aérea da cidade em meados de 1950. Edição realizada pelos autores
Imagem divulgação [Google Earth]

A transformação do sistema hídrico de Águas de Lindóia

O Município de Águas de Lindóia que pertence a uma região sinuosa do interior paulista, em uma ramificação da Serra da Mantiqueira, com clima ameno e rodeado por um relevo montanhoso acidentado, tem seu tecido urbano mais antigo inserido basicamente no vale, não adentrando as partes mais elevadas da topografia e sim, contornando-a na base; isto é ainda mais evidente na central da cidade que corresponde às áreas de localização do Novo Balneário e da Praça Adhemar de Barros, além da represa do Cavalinho Branco e da Avenida das Nações Unidas; pontos principais no sistema de macrodrenagem e bolsões de água da cidade. Os demais tecidos urbanos, Assunção/Sertãozinho, Jardim Meridien, Francos, Popular de Cima e Popular de Baixo, como são comumente conhecidos, se desenvolveram depois da década de cinquenta e não se relacionam diretamente com a hidrografia da área central. Já que pertencem a outra Micro Bacia Hidrográfica, não serão aqui discorrido. (8)

Como observado, a região central da cidade teve um avanço construtivo e a consolidação da sua malha urbana a partir de 1960, principalmente após o Plano Urbanístico do arquiteto Luis Saia para Águas de Lindóia em 1956. O referido plano, que teve forte impacto no desenvolvimento urbano da estância, vinculado aos projetos que ocorreram na cidade, mais precisamente na década de 1950 e 1960, modificaram a conformação hídrica original da cidade consideravelmente.  

Imagem satélite atual da cidade com a identificação dos bairros principais de Águas de Lindóia. Edição realizada pelos autores
Imagem divulgação [Google Earth]

Ao norte, o Morro Pelado, que representa o ponto topográfico mais elevado, a leste o Morro do Cruzeiro e a oeste o Morro do Brejal, formam um “cinturão” de contorno da região edificada na parte central e possuem alturas elevadas em relação a ela. Dado o acentuado relevo e a posição geografia destes morros, as águas das chuvas escorrem rapidamente para o córrego principal da cidade, o Ribeirão da Água Quente, na Avenida das Nações Unidas, que representa o ponto mais baixo da paisagem, até desaguar no Rio do Peixe no município de Lindoia. Com suas principais nascentes no Morro Pelado e no Balneário Municipal, este pequeno afluente se torna volumoso nos períodos de chuva, com crescimento da sua vazão já que toda a água da chuva é direcionada em passo acelerado para o fundo do vale.

Há duas direções possíveis para o fluxo nas bacias atreladas aos processos hidrológicos: vertical, representado pela precipitação, evapotranspiração e umidade e fluxo no solo, e o sentido longitudinal, pelo escoamento do rio e do subsolo. (9) Logo a velocidade com que a água chega ao fundo do vale, e a impermeabilidade do solo na zona urbana podem vir a atrapalhar a percolação da água ou seu escoamento pelo rio quando temos chuvas intensas no território.

Perspectiva de Águas de Lindóia, demonstrando o vale que o tecido urbano central está inserido e a identificação dos morros que estrangulam o constructo. Edição realizada pelos autores
Imagem divulgação [Google Earth]

A partir deste fato, identificamos na Bacia Hidrografia correspondente, dois momentos importantes, o primeiro antes das intervenções com a área de várzea preservada e tortuosa na sua paisagem natural, e o segundo, após a execução dos projetos urbanos, os quais tiveram efeito estético e foram pensados para modernizar e sanear a estância, mas que também se atentou a questão do sistema hídrico de armazenamento e contenção das águas pluviais.

Imagem aérea de Águas de Lindóia com sua Bacia Hidrográfica. Edição realizada pelos autores
Imagem divulgação [Google Earth]

A reconstituição da imagem aérea do território na década de 1950 nos possibilitou compreender melhor estas obras, antes e depois da execução e, consequentemente, a transformação hidrográfica em questão com a alteração original do córrego principal do tecido urbano mais antigo.

Imagem aérea de Águas de Lindóia com a localização dos projetos responsáveis pela macrodrenagem. Edição realizada pelos autores
Imagem divulgação [Google Earth]

As obras apontam diretamente para um sistema de Macro Drenagem das águas da chuva e das nascentes principais do território que envolve basicamente quatrp projetos: O Novo Balneário, A Praça Adhemar de Barros, A Represa do Cavalinho Branco e a Avenida das Nações Unidas. Estes projetos serão explicados a partir da análise comparativa das imagens aéreas dos dois períodos. (10)

Ampliação da imagem aérea de Águas de Lindóia com a localização dos projetos responsáveis pela macrodrenagem. Edição realizada pelos autores
Imagem divulgação [Google Earth]

O Novo Balneário.

É na localização do atual Novo Balneário que começou o primeiro núcleo de moradores da cidade em torno das nascentes de água mineral que ali brotavam no final do século 19. Foi neste vale que dá origem as nascentes de água radioativa que o imigrante italiano Francisco Tozzi, deu início as Thermas de Lindoya; o mesmo construiu hotéis modestos, o bebedouro e salas para banhos frios e quentes, através dos próprios recursos para a execução; nesta área encontravam os locais de pouso, para pessoas que vinham cuidar das moléstias da pele, e casas comerciais. (11)

Imagem aérea aproximada para comparação da região das termas em meados de 1950 à esquerdas e no período atual à direita. Edição realizada pelos autores
Imagem divulgação [Google Earth]

Com a rápida repercussão medicinal e radioativa da água das Thermas de Lindoya no cenário nacional, o território atraia pessoas em busca de tratamento. A procura aumentava a cada ano e a melhoria da infraestrutura se fazia necessário, já que os equipamentos construídos por Dr. Tozzi tornavam-se visivelmente insuficientes para atender a demanda. Esta situação culminou na necessidade de construção de um edifício balneário como novo atrativo turístico e para colocar a cidade em um novo contexto, não somente uma estância de cura, mas também de lazer em um momento de profunda transformação da Estância (sua emancipação política data de 1954). Oswaldo Arthur Bratke, contratado para elaborar o projeto do Novo Balneário, impôs seu estilo modernista ao edifício, tendo sido finalizado em 1959. Em 1960, Roberto Burle Marx concebeu o paisagismo do mesmo.

Novo Balneário Municipal na década de 1960
Imagem divulgação [Acervo Coletado na Biblioteca Municipal de Águas de Lindóia]

Retificação das águas oriundas das nascentes do Balneário
Imagem divulgação [Acervo Coletado na Biblioteca Municipal de Águas de Lindóia]

Com o término do projeto o fluxo da água que ali brotava das nascentes alterou seu percurso de transposição até a vertente do córrego principal, uma vez que passou a ser canalizado em dois pontos. A água anteriormente saia do balneário por um leito manso com destino ao que é hoje o atual Bosque Municipal, por onde ela desce até chegar às partes mais baixas da cidade e abastece o córrego principal. Após a construção do projeto, a água foi canalizada do balneário até o bosque, e do mesmo até a Avenida das Nações Unidas, mantendo seu percurso natural apenas na área central do bosque. Este processo representou uma alteração na paisagem próxima ao balneário e na condução da água das nascentes para o leito do rio; o caminho das águas era lento até o bosque. Hoje com as galerias subterrâneas sob o sistema viário próximo, aumentou a velocidade de escoamento e prejudicou o processo de drenagem das águas pluviais.

Praça Adhemar de Barros.

Imagem aérea aproximada para comparação da Praça Adhemar de Barros em meados de 1950 à esquerda e no período atual à direita. Edição realizada pelos autores
Imagem divulgação [Google Earth]

  

A Praça Adhemar de Barros é um dos principais pontos turístico da cidade. Projetada por Roberto Burle Marx, modificou significantemente a paisagem do local com traços marcantes e sinuosos. Caraterizada por se tratar de uma praça-parque, possui grande dimensão na paisagem urbana. Antes do projeto, a área possuía características rurais e se tratava de um local destinado à criação de gado, ladeada por um córrego em sua proximidade. Na porção do relevo mais alta da área localizava-se um campo de futebol, e ao redor algumas das primeiras residências da cidade e onde alguns hotéis estavam implantados. Uma pequena barragem foi construída para armazenar água provinda das nascentes do morro pelado, o que desencadeou a formação de uma área alagada. A execução do projeto de Roberto Burle Marx transformou este cenário e alterou a região. Um lago totalmente diferente e sinuoso foi implantado em posição diferente do anterior, logo, a topografia foi modificada em benefício de seu paisagismo.

Entretanto, muito mais que um projeto paisagístico, o lago da Praça Adhemar de Barros trabalha integrado ao sistema hídrico da cidade e é também um projeto de saneamento, e ao mesmo tempo, de macrodrenagem. Funciona como captador das águas provenientes da Represa do Cavalinho Branco e consequentemente das nascentes do Morro Pelado até seu escoamento para o córrego da Avenida das Nações Unidas em que se une com a água oriunda das nascentes do Novo Balneário. Envolve também outros pontos: a requalificação do sistema viário e a relação do projeto com os edifícios do entorno imediato.

Analisando essas transformações, verificamos como o cenário urbano e a hidrografia se modificou ao longo do tempo, o córrego proveniente das nascentes do Morro Pelado que percorria uma área de várzea na porção norte da figura 11 foi totalmente canalizado, como vemos na imagem atual, destacado em vermelho, o que acarreta em problemas de vazão no período de chuvas. Um pouco abaixo desta canalização foi construída a estação de tratamento de água e esgoto da cidade, o SAAE (Saneamento Ambiental de Águas de Lindóia), que tenta controlar a vazão da água que desse da Represa do Cavalinho Branco para a Praça Adhemar de Barros. Em suma, o lago da praça trabalha integrado com a hidrografia colaborando com a macrodrenagem e com o sistema hídrico da cidade, recebendo a água proveniente das partes mais altas. Desta forma, concluímos que o projeto de Burle Marx é fruto de um planejamento urbano para a estância hidromineral.

Lago do Cavalinho Branco.

A Represa do Cavalinho Branco ou Lago do Cavalinho Branco como é comumente conhecido está localizado na cota topográfica mais alta em comparação à praça e é ela a responsável por receber as águas provenientes do Morro Pelado. Atualmente, ao seu redor é destinado para práticas esportivas, como caminhada, corrida e ciclismo e as poucas construções da área não alteraram significantemente suas características naturais do entorno imediato, com uma vasta área verde e presença de animais silvestres. Entretanto na década de setenta foi construída uma barragem de contenção das águas para a represa que inundou uma área da lagoa, na poção sudoeste da região, aumentando seu volume de armazenamento e modificando as dimensões da represa.

Imagem aérea aproximada para comparação da represa em meados de 1950 à esquerda e no período atual à direita
Imagem divulgação [Google Earth]

Este projeto, de contenção da água, é importante por se tratar da “cabeça” do sistema hídrico da cidade e ser responsável por controlar as demais áreas; quando o lago está baixo, no período de seca, o sistema como um todo sofre com a falta de água, na época das cheias o sistema pode sofrer com inundações nas partes mais baixas, sendo este o responsável pela regulação de toda a área. Os morados da cidade mencionam inundações ocorridas e no início deste século, a barragem rompeu-se, o que levou a inundação das áreas mais baixas, nas imediações da Praça Adhemar de Barros e da Avenida das Nações Unidas.

Lagoa do Cavalinho Branco na década de sessenta
Imagem divulgação [Acervo Coletado na Biblioteca Municipal de Águas de Lindóia]

Lagoa do Cavalinho Branco após a construção da barragem para contenção de água.
Foto dos autores

Avenida das Nações Unidas.

Este local representa a intervenção mais acentuada na alteração da paisagem original realizada, modificando intensamente a região. A análise desta área evidenciou uma intensa transformação, ocorrida em partes, ao longo do tempo, com projetos de canalização em diferentes períodos que mudou drasticamente o leito sinuoso do córrego principal da cidade. A primeira fase de canalização do córrego começou na década de cinquenta com a execução da obra até as proximidades do Hospital Dr. Francisco Tozzi, contemplando o local destinado à implantação do Centro Cívico (CC) como apresentado no plano de Luis Saia para Águas de Lindóia. (12) A segunda fase canalizou o córrego até a região da Rodoviária Municipal na década de setenta, urbanizando toda a região destinada à zona urbana normal (ZUN), principalmente devido ao intenso crescimento urbano desta área. A última fase, na década de noventa, levou a canalização de um pequeno trecho, da Rodoviária Municipal até o Hotel Vacance.

Imagem aérea aproximada para comparação da avenida em meados de 1950 à esquerda e no período atual à direita
Imagem divulgação [Google Earth]

A Avenida das Nações Unidas se tornou um boulevard aos moldes da cidade de Santos e do que pregava o sanitarista Saturnino de Brito. Com a requalificação do sistema viário imediato, a utilização de desenhos no calçamento com mosaicos portugueses e a plantação de coqueiros modulares e arbustos que funcionam como anteparo entre a calçada e o leito do rio canalizado, a referida avenida tornou-se ponto de sociabilidade, e práticas esportivas. Porém, esta intervenção foi responsável por trazer implicações consideráveis referentes ao sistema hídrico.

A canalização da Avenida das Nações Unidas alterou o traçado sinuoso e lento que dotava a hidrografia da área, modificando-se para um trajeto mais direto, reto e rápido, aumentando a velocidade com que a água deixa o munícipio de Águas de Lindóia e desagua no Rio do Peixe no município vizinho de Lindóia, foi também responsável por diminuir diretamente a área de várzea inundável das margens do córrego, bem como os espaços verdes que possibilitam uma maior filtragem das águas pluviais que penetram no solo até atingir o lençol freático. Estas consequências podem trazer transtornos no período das cheias, podendo acarretar em alagamentos das áreas vizinhas e das casas próximas, que corresponde à parte mais baixa de todo o sistema hídrico da estância.

A Canalização do córrego na Avenida das Nações Unidas. A primeira fase na década de cinquenta
Imagem divulgação [Acervo Coletado na Biblioteca Municipal de Águas de Lindóia]

A Canalização do córrego na Avenida das Nações Unidas. Segunda fase na década de setenta [Acervo Coletado na Biblioteca Municipal de Águas de Lindóia]

Deste modo, a retificação do rio e a construção da avenida trouxeram ameaças de alagamento, mas ajudaram naquele momento a eliminar o esgoto rapidamente da cidade. Este projeto teve forte influência no território, e encabeçou um desenvolvimento massivo ao longo deste trecho de fluxo viário, porém ignorou as características naturais do curso d´água e acelerou o percurso do córrego interferindo diretamente na biodiversidade aquática já que o revestimento de concreto e os materiais impermeáveis utilizados na obra impossibilitam a água de infiltrar no solo podendo acarretar prejuízos ao lençol freático e a hidrografia como um todo. Se por um lado esta canalização promoveu o desenvolvimento urbano da região central da cidade, por outro, ela gerou problemas ambientais decorrentes da sua canalização.

Conclusão

Águas de Lindóia sofreu um intenso processo de transformação da paisagem após a década de cinquenta, principalmente o que tange a sua hidrografia; os projetos de requalificação urbana retificaram o leito do rio com a canalização de córregos e prejudicaram a área de várzea inundável e consequentemente a percolação das águas pluviais; o sistema hídrico como um todo é instável e pode sofrer inundações a todo o momento; as fortes precipitações da chuva culminam em alagamentos e algumas vezes transbordo dos lagos e da Avenida das Nações Unidas. Por outro lado, a visibilidade da paisagem, principalmente após o projeto de Roberto Burle Marx para a Praça Adhemar de Barros e o projeto de Oswaldo Bratke para o Balneário Municipal, qualificaram a cidade visualmente e integraram a paisagem com o constructo.

Os lagos que compõe o sistema hídrico de Águas de Lindóia funcionam como bolsões de contenção da água e tentam minimizar os efeitos de grandes tempestades; a Represa do Cavalinho branco e o lago da Praça Adhemar de Barros estabelecem uma relação mutua em que cada um interfere diretamente no outro, assumindo características semelhantes durante o ano, seja na seca ou nos períodos chuvosos. O córrego canalizado se relaciona com todo o processo de transposição hídrico da cidade, ele recebe as águas destes lagos bem como das nascentes do balneário. Portanto os projetos analisados tratam muito mais de um sistema de drenagem, infraestrutura e saneamento do que um projeto de paisagismo e melhorias urbanas.

As consequências positivas desses projetos, a longo prazo, foram sentidas principalmente no desenvolvimento urbano e na reconstituição das matas; o primeiro por ter melhorado e ordenado o adensamento urbano, além de diminuir seu espraiamento; já o segundo, por recuperar a vegetação dos morros antes degradada pelas plantações de café. Indiretamente, a década de cinquenta lançou um olhar para o futuro de Águas de Lindóia e norteou o seu desenvolvimento até os dias atuais. De qualquer forma, o que notamos é que a paisagem da cidade, principalmente sua hidrografia, sofreu uma profunda alteração com essas intervenções, revelando algumas relações existentes entre natureza e cidade no interstício da Arquitetura do Movimento Moderno no Brasil.

notas

1
SILVA, João Paulo de Campos e. Guia histórico de águas de Lindóia. Campinas, Editora Átomo, 2005.

2
SÔNEGO, Márcio Jesus Ferreira. A fotografia como fonte histórica. Revista Historiae, v.1, Rio Grande do Sul, 2010, p. 113-120.

3
DAVIS. William M. The Geographic Circle – Institute of British Geographers. The Geographical Journal, vol 14, n. 5, nov. 1899, p. 481-504.

4
RODRIGUEZ, Marly.  O Brasil na década de 1950. São Paulo, 2010, p.11.

5
SILVA, João Paulo de Campos e. Op.cit.

6
IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Disponível in <http://biblioteca.ibge.gov.br /visualizacao/dtbs/saopaulo/aguasdelindoia.pdf>

7
TOZZI, Miran. A Cidade das Águas Azuis. Rio de Janeiro, Zoomgraf-K Ltda, 1987, p.5.

8
MANTOVANI, Samuel. Arquitetura, cidade e paisagem: a construção da cidade moderna de Águas de Lindóia através da atuação de Oswaldo Bratke, Luís Saia, e Roberto Burle Marx. Dissertação de Mestrado. PUC-Campinas, Campinas, 2017, p. 29.

9
TUCCI, Carlos E. M.; MENDES, André Carlos. Avaliação ambiental integrada da bacia hidrográfica. Brasília, Ministério do Meio Ambiente, 2006.

10
MANTOVANI, Samuel; COSTA, Luiz Augusto Maia. The Relation between Nature, Landscape and Urban Space in the Projects of Roberto Burle Marx for the city of Águas de Lindóia, Brazil. Seul, UIA, 2017.

11
FRANCO, Amanda Cristina. Cidades de Cura, Cidades de Ócio: A Influência de concepções estrangeiras no urbanismo de três estâncias paulistas: Águas de Lindóia, Águas da Prata e Águas de São Pedro 1920 – 1940. Dissertação de Mestrado. São Carlos, 2005, p. 169.

12
MANTOVANI, Samuel. Op. cit.

sobre os autores

Samuel Machado Mantovani
POSURB/PUC-Campinas.Arquiteto Urbanista [2015] e Mestre em Urbanismo pela PUC-Campinas [2017]. Principal Obra Pública: Artigo apresentado e publicado no “UIA 2017 - Seoul World Architects Congress”: “The Relation between Nature, Landscape and Urban Space in the Projects of Roberto Burle Marx for the City of Águas de Lindóia, Brazil.”.

Luiz Augusto Maia Costa
POSURB/PUC-Campinas, Arquiteto – Urbanista pela FAUFBA, Doutor em Arquitetura e Urbanista pela FAUUSP. Professor Titular do Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo – POSURB – da PUC- Campinas.

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