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architexts ISSN 1809-6298


abstracts

português
Este artigo propõe a discussão da arquitetura contemporânea e as sobreposições de linguagens com uma conseqüente fragmentação entendida aqui na ótica da poética da collage mais especificamente em intervenções sobre edifícios pré-existentes.

english
This paper proposes a discussion of contemporary architecture and the overlapping of languages ​​with a consequent fragmentation understood here in the view of poetic collage of interventions more specifically in pre-existing buildings.

español
En este trabajo se propone un debate sobre la arquitectura contemporánea y la superposición de idiomas con una fragmentación consiguiente entendida aquí en la vista de collage poético de las intervenciones en los edificios preexistentes.


how to quote

CASTRO, Cleusa de. Estética da collage em arquitetura. Arquitextos, São Paulo, ano 18, n. 206.03, Vitruvius, jul. 2017 <http://mail.irmaosguerra.com/revistas/read/arquitextos/18.206/6630>.

Esta artigo (1) visa discutir uma tipologia arquitetônica que se refere aos edifícios híbridos decorrentes de somatória de linguagens sobrepostas e analisá-la sob a ótica da collage, aproximando a arquitetura da disciplina artística com a intenção de ampliar os horizontes interpretativos e criativos desta arquitetura específica e cada vez mais presente em nossas cidades.

A complexidade destas cidade que se compartimentam na acomodação de suas necessidades espelha sua desintegração no microcosmo dos edifícios que as compõem. Neste universo vale destacar aqueles edifícios que resultam da somatória de linguagens reais, palpáveis, memoriais, referenciais e fragmentadas, podendo ser resultado de processo de intervenção sobre uma pré-existência ou não. Neste processo contínuo, invenções, substituições, intervenções, reprocessamento e criações ocorrem enquanto aspectos inerentes à arquitetura, operação legítima do que se acomoda às vicissitudes da civilização ao incorporar e participar da construção dos seus significados.

As cidades que carregam a responsabilidade da transmissão às gerações futuras de sua história por meio da preservação de sua arquitetura enfrentam o desafio de conciliar o antigo ao novo que se faz necessário diante das inúmeras solicitações dos novos tempos, programáticas, técnicas e funcionais. Não há arquitetura sem destruição, ou melhor, sem transformação, seja do lugar, dos materiais ou do existente. Sobre estas demandas soma-se a afirmação formal que necessita espelhar o pensamento criativo de seu tempo e tal qual nos tempos passados, refletir a capacidade intelectual de cada povo, numa acirrada competição para demarcar seu território e sua grandiosidade.

Paralelamente às investidas públicas, o capital privado participa desta renovação com o financiamento de uma produção arquitetônica que busca refletir o poder econômico das instituições com a criação de imagens de vanguarda e inovação tecnológica. Neste cenário, ainda que diluído no caos urbano, tais fragmentos pontuam uma produção arquitetônica que aponta para o diálogo necessário entre o que fica e o que nasce no mundo da arquitetura.  Novos ícones surgem assim em diversos edifícios culturais já historicamente consolidados (museus, bibliotecas, teatros) ou por meio do aproveitamento de antigos edifícios que são reciclados. A utilização da carga simbólica destes edifícios existentes é re-equacionada enquanto elemento formal que interage com a intervenção.

Cada vez é mais recorrente a necessidade de se compartilhar a nova obra com restos arquitetônicos de tempos passados e ao se deparar com a necessidade de trabalhar tal sobreposição de linguagens o arquiteto lança mão de seu purismo formal e envereda pelo tortuoso caminho da sobreposição de linguagens. As respostas, ainda que muito distintas, contém uma raiz formal que pode se associar à estética pictórica.

Como uma obra dentro de uma obra, o jogo de referências passa a ser o mote que desenvolve a idéia sugerida, abarca a linguagem própria do arquiteto e a subverte através de um labirinto de correlações que transformam cada parte em única e fragmentam de novos significados o conjunto.

Neste sentido, é pertinente considerar a arquitetura como collage quando esta pressupõe a incorporação de elementos externo à obra como material específico, matéria real existente e pré-existente como também referências formais que agregam-se à obra por meio de uma nova lógica organizativa. Nesta proposta de arquitetura como collage o passado e o presente interagem como matéria conceitual.

A collage nas artes

A collage, a partir dos primeiros papiers collès surgidos, em 1912/1913, em uma série de obras de Pablo Picasso e George Braque, introduziu questões sobre o estatuto das obras de arte. Estas colagens (collages), constituídas de materiais, em princípio industrializados e desprovidos de valor utilitário ao serem introduzidos no contexto da obra de arte reelaboram elementos reais que substituem o ilusionismo do óleo sobre tela.

Natureza morta com cadeira de palha, primeira obra de collage de Pablo Picasso, 1912
Foto Cleusa de Castro [Museu Picasso]

O princípio operativo da collage nas artes plásticas consiste na justaposição de materiais, em princípio, estranhos à técnica convencional da fatura da obra, ou seja, na utilização de materiais extrapictóricos ou extra-artísticos, e sua descontextualização e incorporação ao novo contexto da obra de arte. Traduziu-se, na pintura, à agregação de um elemento real (jornal, revista, anúncio, areia, madeira, encerado, etc) à obra pictórica, traduzindo em representação e novo sentido. Além da técnica propriamente dita, o elemento material da colagem pode, sobremaneira, influir ou determinar o sentido da obra de arte. Enfim, o cubismo, no afã de trazer à representação a possibilidade de visualização do objeto representado como este é percebido na mente do artista e do espectador, mediante geometrização das formas e volumes a partir da leitura e dos ensinamentos de Cézanne, do rebaixamento dos tons, mudança da noção de claro-escuro, despertou a abstração nas artes-plásticas (o cubismo ainda procura a representação figurativa), sobretudo, em face da sua influência na obra de Piet Mondrian.

A base do conceito de collage determina uma técnica ou estratégia formal que busca resultado no agrupamento de elementos de natureza desigual para configurar um novo objeto. Segundo Ferit Iscan,

“no princípio, a collage nasce como contrapartida à pintura clássica, preciosista, e inclusive para fugir da aridez da abstração geométrica. A collage pretende ser uma forma de aproximação ao objeto, mediante elementos integrantes do próprio objeto: materiais rudimentares, funcionais, utilitárias. Tudo, menos cair na pura representação pintada e, portanto, idealizada. No lugar de propor uma recriação da realidade, o autor de collage substitui essa realidade por outra” (2).

A collage experimenta, assim, a tensão entre materiais agregados à obra onde prevalece o destaque da diferença entre as partes em uma confrontação entre os elementos dispostos. Restabelece uma nova relação icônica/simbólica, na medida em que os materiais e recortes de jornais, de revistas, de anúncios recompõem o significante/significado, em face de sua forma e posição na obra, relação nova e particular, exigindo ou permitindo ao espectador a inferência da simbolização e significado, complementando o sentido da obra de arte.

A partir dos anos 1960, críticos e historiadores passaram, Rosalind Krauss, por exemplo, a buscar sentido, inclusive, no próprio texto e das imagens dos jornais, anúncios e revistas contidos nos papiers collès. A propósito, ainda que inconsciente, a escolha de um certo texto ou anúncio pelo o artista não pode ser tida como totalmente ou sempre aleatória, compreendendo já a escolha mesma um expresso sentido.

A collage tem exercido, desde as primeiras obras, um fascínio na comunidade de artistas que nela experimentam uma nova possibilidade de expressão. O material colado exerce sobre o olhar do espectador uma atração que o detém na trama de realidades sobrepostas e fragmentadas o que o obriga a fixar-se em sua concretude e dela extrair a poética da obra. Esta condição justifica a extensão que a noção de collage assumiu até a arte contemporânea e a sua abrangência universal que faz dela base de numerosos eventos estéticos, ultrapassando os limites das artes plásticas.

Da matéria encontrada e anexada à obra a collage propicia a reelaboração do objeto artístico ao sugerir formas que são resultado da somatória de fragmentos escolhidos de objetos do mundo real e posteriormente reprocessados e modelados numa nova obra, como faz Picasso em sua Cabeça de Touro, objeto fundido em metal a partir de uma justaposição anterior de um selin de bicicleta e um guidon.

Cabeça de touro, Pablo Picasso
Foto Cleusa de Castro [Museu Picasso]

Do cubismo, a collage contamina e se expande pelo futurismo, pelo Dada, pelo Surrealismo, atinge a Pop Art americana, a Art Brüt, as manifestações pós-modernas, a figuração livre, e outros diversos estados da arte atual.

Ao se utilizar de coisas encontradas, nem por isso a estratégia da collage se submete a elas, por vezes propõe o seu uso como uma negação do próprio sentido destes objetos, incorrendo aí a ironia do método. Esta característica é lembrada pelos autores como uma alternativa à rigidez das propostas utopistas platônicas ou marxistas para sociedades, que poderiam então ser utilizadas como imagem através de seus fragmentos, sobrepostos a uma realidade mais flexível, pluralista e mutável.

Um intrincado jogo de significados é traçado através dos fragmentos de materiais que se fundem ao motivo pintado ou desenhado na obra de collage, uma trama labiríntica que cada vez mais cresce em complexidade atingindo um auge com as criações do artista alemão Kürt Schwitters.

De dualidade explícita, a collage remete ao mito do Minotauro, que persegue o imaginário criativo do próprio Picasso. Da idéia de monstruosidade, de algo que foge à natureza, a collage estabelece com o mito grego uma cumplicidade de significados – ainda que seja identificado como monstro, reconhece-se nele as partes que lhe deram origem por meio da paixão perversiva de Pasífae por um magnífico touro que deveria ter sido sacrificado. Presa no labirinto de referências que remetem a referências, e vista como concepção monstruosa por aqueles que não aceitam ainda o novo na arte, a obra de collage não se permite decifrar facilmente pelo seu observador.

A fusão da arte com a vida e sua tradutibilidade de significados entre um e outro subverte a esperada pureza e distanciamento da obra de arte.  O aspecto abstrato que deriva da proposta desta fusão depende ainda da inserção de certos subterfúgios que encaminham a obra para o campo definitivo da arte, sejam estes aspectos compositivos, inserção de determinados símbolos nitidamente referentes à arte e certa pátina artística traduzida em pinceladas, desenhos, manchas, referências próprias do autor que mancham o conteúdo com a aura espetacular da obra de arte. Esta não tem explicitamente uma definição, mas incorpora a obra com nitidez. Postos lado a lado, estes sinais artísticos e os fragmentos da vida cotidiana se auto-purificam, se transformam e se modificam mutuamente. Os fragmentos da vida que são colados para formarem a obra são assim elevados a outro nível de significado, a que são trazidos a um nível de consciência mais contemplativo do que é habitual na vida cotidiana. Como observa Donald Kuspit:

“Uma vez ‘lavados e passados’, os fragmentos de vida têm – por utilizar um termo crítico supostamente indicativo de um elevado nível de consciência estética – uma “frescura” que não tinham quando estavam vivos. Esta frescura é signo de sua autonomia, de sua nova presença, tão inefável como supostamente eterna. Os fragmentos de vida têm sido transportados de um estado transitório a um presente eterno do modo menos traumático possível” (3).

Em sua natureza heteróclita a collage é essencialmente abertura, multiplicidade de campos de possibilidades em evolução. Collage é um princípio, extrapola a simples técnica e transforma-se em poética. Das artes plásticas contamina outros universos de criação até chegar à arquitetura. Na arquitetura, não ocorre a transferência imediata de seus princípios, uma vez que questões funcionais, éticas, técnicas e mesmo sociais interferem na conceituação da obra.

Das artes para a arquitetura: uma aproximação

A primeira questão que se anuncia é a da aproximação proposta entre arte e arquitetura. Tantas vezes reconhecida, esta aproximação esbarra em conceitos teóricos que se auto alimentam ou se anulam mutuamente. Experimentado desde a antiguidade, tal acercamento vincula-se à própria origem do termo arquitetura. É na tríade vitruviana – firmitas, utilitas e venustas – que a definição da arquitetura apresenta seu específico e gravita em órbita própria, ainda que pertença à mesma constelação original do mundo das artes. O entrelaçamento entre as três características definidas por Vitruvius é essencial, conceitua a arquitetura e distingue-a da construção comum. Firmitas e predominantemente utilitas, distanciam a arquitetura do conceito de obra de arte pura. A arquitetura ao amparar as atividades humanas e dela ter o seu fundamento, apropria-se de uma realidade da qual a obra de arte apenas esbarra. A arquitetura, assim, por assentar-se no empirismo, não detém um distanciamento necessário para lhe proporcionar autonomia ainda que uma parte de sua essência flutue no abstrato mundo das artes.

Dentro das inúmeras possibilidades formais experimentadas pelas vanguardas artísticas foi escolhida a collage como campo específico de aproximação entre arte e arquitetura. A estética da fragmentação traduz o caráter destes edifícios específicos  determinados como resultado da somatória de partes e de valores agregados que contribuem para a formação de um corpo arquitetônico distanciado conceitualmente daqueles de nítido caráter unitarista.

Da collage extrai-se a especificidade conceitual para interpretar a simultaneidade de arquiteturas, amálgama de elementos arquitetônicos e temporalidades, na busca da compreensão da complexidade desta investida arquitetônica.

As modificações decorrentes das sobreposições materiais e estéticas e o cruzamento de distintos significados fazem dela uma obra aberta, em que as leituras possibilitam diversas interpretações. Assume assim, a obra, um caráter de independência como ser artístico, cada parte atribui um determinado significado e solicita uma atitude ao criador e ao espectador. Na obra do edifício-collage o sentido de obra fragmentada é nítido, ainda que a interrelação entre a parte nova e a colada seja explícita e determinante do conceito geral da obra.

A identificação da uma estética da collage através de diversos momentos da história da arte aponta para uma suspeita de que esta seria uma postura de transição, de flutuação entre estéticas e movimentos formais mais definidos. Na collage há a aceitação da sobreposição de linguagens como uma soma, e não como uma exclusão, que não supõe a anulação dos valores passados, mas a inserção de pedaços do que passou a uma nova acomodação formal. Collage em arquitetura passa a ser a possibilidade de uma obra nova carregar fragmentos e significados de uma obra antiga.

A somatória de linguagens arquitetônicas num mesmo edifício é prática comum mesmo aos mais puristas dos arquitetos quando defrontam com a necessidade de atuar sobre um edifício preexistente. Ainda que seguros de suas linguagens bem consolidadas em uma corrente arquitetônica, a hibridização resultante desta prática lança o edifício à outra família formal em que prevalece a ambigüidade e a fragmentação.

Se na arte a collage implica na transformação do material da vida cotidiana em matéria de arte, na arquitetura o processamento da matéria que se transforma em edifício-collage provém também do cotidiano, do vernacular e fundamentalmente, do passado. Através da utilização de fragmentos ou restos de edifícios já existentes (material ou formalmente) e da inserção destes na concepção do novo edifício ocorre uma transformação no significado dos fragmentos empregados. Tais fragmentos passam da condição de edifício pré-existente ou de ruína abandonada à nova condição de parte de uma arquitetura contemporânea. A transmudação ocorre no jogo de significados cruzados que se estabelece entre as partes e o enaltecimento do resultado é obtido pela erudição acumulada e processada pelo arquiteto que manipula formalmente as partes. Do processo de construção do edifício-colage decorre a celebrização do banal, do vernacular.

Pode parecer impertinente neste momento atual em que a retomada dos preceitos modernos persegue a prática arquitetônica através da nitidez da construção de seus objetos na busca de uma depuração máxima da linguagem, a proposta de se discutir a estética da imperfeição e da fragmentação. Entretanto, o edifício-collage constitui um universo à parte na produção arquitetônica desde a antiguidade e ocupa cada vez mais espaço num mundo que busca expiar a culpa pelo excesso de suas sobras.

A primeira referência teórica de transposição dos princípios da collage da pintura para a arquitetura foi apresentada por Colin Rowe e Fred Koetter no livro Collage City publicado em 1978. Esta importante obra apresenta sua crítica ao Movimento Moderno e à sua proposta de se desvincular do passado, principalmente no que se refere ao seu urbanismo. Influenciada pelos escritos anti-totalitários de Karl Popper e comprometida com questões éticas, a teoria de Collage City defende a utilização da técnica da collage como solução para a convivência de distintas linguagens numa cidade onde o novo teria lugar junto ao antigo.

Ao criticarem a arquitetura moderna, defensora de uma postura de unidade, continuidade e sistema para a compreensão e atuação sobre a cidade e a sociedade, Rowe e Koetter apresentam outra modernidade não simpatizante de “princípios básicos” para sua arte, representada pelas obras de Pablo Picasso. Afirmam ser a collage:

“freqüentemente um método de dar atenção às sobras do mundo, de preservar sua integridade e conferir-lhes dignidade, de combinar o informal com o cerebral, a convenção e a quebra da convenção, opera necessariamente de modo inesperado” (4).

Edifícios-collage

Ao longo do século 20 a arquitetura atreveu-se em diversos caminhos e foi buscar respostas ao seu tempo que traduzissem o espírito moderno e seu novo homem, sobrevivente às guerras e desafiador da história com suas intermináveis inovações tecnológicas. Balizada por novas tecnologias, pelas novas realidades populacionais, sociais e econômicas, respaldada por correntes filosóficas e movimentos artísticos, a arquitetura experimentou estados formais que buscavam manifestar seus ideais. A arquitetura moderna teve nos seus exemplares mais clássicos de busca do ideal, o caráter unitarista, decorrente das posturas clássicas que foram enaltecidas no renascimento.

Por trás do formulismo, dos ideais de objetividade e racionalidade declaradas, a rigidez clássica do modernismo encontrou, entretanto, algumas fendas por onde foi possível extravasar outra expressividade formal ao se deixar levar por estados de espírito mais complexos, que evocavam momentos sobrepostos de conhecimento e de expressividade. Poucas foram as oportunidades neste período efervescente dos primórdios da arquitetura moderna onde a linguagem purista abriu espaço para uma manifestação de caráter híbrido. Este estado de fusão de linguagem foi aceito e incorporado à linguagem tradicional até o ponto onde não interferisse com muita afirmação na leitura do objeto arquitetônico, restringindo-se à parte da composição.

O edifício-collage seria aquele que se apresenta como uma somatória de partes de origens distintas e traduz-se por uma estética fragmentária caracterizado como um organismo híbrido, distanciado conceitualmente daqueles de nítido caráter unitarista. Tal edifício incorpora a sobreposição de tempos distintos, o passado que é resgatado ou apropriado e o presente, em que se dá a ação do projeto de arquitetura que proporciona a reunião destas partes. Este edifício assim definido pela eminente hibridização em que prevalece a ambigüidade e a fragmentação é resultante da somatória de linguagens. Tais linguagens podem decorrer de intervenções sobre obras pré-estabelecidas, geradas a partir de modificações de funções e alterações no resultado compositivo compreendido aqui como collage literal, ou de sobreposições de citações de partes de edifícios consagrados aqui entendido como collage referencial.

A collage referencial trata da inserção de elementos formais, criados no momento da concepção do edifício, que insinuam ou simulam outro edifício ou parte dele, ou outro contexto, aparentemente destoantes em relação ao conjunto – trata-se de uma composição em que a poética é dada por meio de citações em que o significado é dado por meio de referências cruzadas.

Le Corbusier (1887-1965) é lembrado por diversos autores como o arquiteto que, no seio do Movimento Moderno enfrentou o desafio da collage. Realiza experimentos que explicitam a aceitação de uma pluralidade formal que envolve desde citações de formas e fragmentos de objetos tratados iconicamente a fim de destacar sua crença na poética da máquina ou de elementos da natureza bem como na incorporação de elementos preexistentes às suas obras.

A tradução dos princípios da collage da pintura para a arquitetura pode ser considerada como um facilitador para que Le Corbusier investisse nesta técnica para suas obras, tendo em vista que a pintura e a escultura eram uma atividade tão presente na sua vida quanto a arquitetura. A interpretação dos princípios da collage para a arquitetura de Le Corbusier passa necessariamente pelo Purismo e de sua relação com o cubismo, como observa Fábio Santos:

“Como nas pinturas puristas (ou nas de Lèger), a figuração descontextualizada foi explicitada em diversas edificações, em que afloram traços da dívida do Purismo à collage cubista” (5).

A sua obra mais explícita de collage com elemento retirado de outro contexto é o Apartamento de Charles de Beistegui (Paris, 1929-31), com seus três jardins suspensos em terraços revestidos de pedra e grama artificial onde se distribuíam escadarias, planos e volumes curvos. No último destes terraços-jardim, foi inserida uma falsa lareira-Magritte, elemento escultórico surreal que dialoga com o Arco do Triunfo ao fundo e se destaca radicalmente da linguagem moderna dos demais elementos arquitetônicos do apartamento. Frampton escreve que “esse exercício de sonho – reminiscente dos interiores de Adolf Loos para a casa de Tristan Tzara de 1926 – manifestou suas disjunções ‘estéticas’ em mais de um nível” (6).

A collage referencial é processo que não se especifica com clareza, poética que se apreende quase intuitivamente e que se alastra por caminhos labirínticos que encobrem a fonte original ou a finalidade última; gera desdobramentos exponenciais em que as bordas referentes ao objeto de origem se esvanecem. Le Corbusier usou desta poética fundindo-a a outros processos criativos e reside aí a dificuldade em separar cada referência ou citação dos seus demais princípios operativos de que lança mão ao conceber seus edifícios.

Neue Staatsgalerie, Stuttgart, 1984, arquiteto James Stirling
Foto Cleusa de Castro

Já James Stirling (1926-1992) com sua obra Neue Staatsgalerie de Stuttgart, inserida no contexto da pós-modernidade, apresenta a possibilidade de criar uma obra que é resultado de complexa sobreposição de elementos citados que presta homenagem à cidade e à arquitetura como disciplina. Eminentemente alegórica e submetida a uma estruturação de referências cruzadas, sua obra exprime densa complexidade que vem a encerrar o movimento por sua insuperabilidade.

Castelvecchio, Verona, 1959-1973, arquiteto Carlo Scarpa
Foto Cleusa de Castro

Pode-se apontar Carlo Scarpa (1906-1978) como um clássico que consolida uma linguagem arquitetônica da collage literal por meio de inserções em edifícios preexistentes. Arquiteto de transição entre a arquitetura moderna e a contemporânea, este mestre italiano do detalhe traduz em fragmentos uma das arquiteturas-collage mais notáveis de nosso tempo. O caráter labiríntico das justaposições propostas no Castelvecchio de Verona acontece como uma obra dentro de uma obra, num intrincado jogo de referências que reafirma a linguagem própria do arquiteto e a subverte em correlações que transformam cada parte em única e contaminam de novos significados o conjunto.

Castelvecchio, Verona, 1959-1973, arquiteto Carlo Scarpa
Foto Cleusa de Castro

Da visita a obras da celebrada arquitetura portuguesa contemporânea pode-se constatar que a collage é uma estratégia que possibilita a percepção das camadas construídas pela história da civilização e sua tradução em poéticas contemporâneas. A densidade histórica daquele país que resume a realidade de muitas localidades do Velho Mundo é reavivada por meio da sobreposição de novas arquiteturas que, em fragmentos, coabitam o mesmo sítio e reorganizam séculos de tradição. Destacam-se neste universo a intervenção de Álvaro Siza Vieira (1933-) no Chiado, em Lisboa; a Casa dos 24 de Fernando Távora (1923-2005) no Porto e a Pousada de Santa Maria do Bouro, de Eduardo Souto de Moura (1952-).

Pousada de Santa Maria do Bouro, arquiteto Eduardo Souto de Moura
Foto Cleusa de Castro

O detalhe encontra na obra de collage a possibilidade de estabelecer a convivência do novo com o preexistente e a determinação de hierarquias nos tantos fragmentos que definem a obra. É no detalhe que ocorre a separação e distinção dos tempos; elemento-passagem vincula as diferentes linguagens e estabelece uma continuidade ali onde se imagina o descontínuo. Arquitetos como Carlo Scarpa e Álvaro Siza dão ênfase ao detalhe ao ponto deste prevalecer como definidor da estética trabalhada da nova arquitetura sobre a antiga. Para outros, como Souto de Moura, o detalhe não se detém como elemento de ligação, mas como parte conceitual da própria estética da arquitetura, baseada na redução de ícones e economia formal sem se deter na necessidade de estabelecimento de transição entre seus elementos inseridos e os preexistentes.

O todo e as partes

Na definição de collage partindo-se, portanto, da arte para a arquitetura, as palavras chaves que permitem conceituar a obra seriam: aglomeração, fragmentação, justaposição, incongruência e abstração. Diante desta relação, torna-se difícil supor a possibilidade de encaixar a idéia de todo a uma obra que se submeta a tais conceitos sobrepostos. A visão de uma obra constituída de partes é muito mais aceitável se forem consideradas a somatória de características enunciadas e imaginá-las todas aplicadas a uma única obra. Pode partir-se, portanto, do princípio que uma obra de collage não forma um todo, que seu o princípio operativo atua em relação às partes e que o seu caráter provém da relação estabelecida entre estas partes.

A obra assim configurada forma um indivíduo artístico ou arquitetônico e, com premissas bem definidas, firma-se por meio do arranjo proposto seguindo uma ordem preliminar de fragmentária natureza. Entretanto, as diversas possibilidades destes arranjos são definidas pelas partes coladas, que têm significado próprio.

Ao conjunto destas somatórias que resulta na obra não se exige harmonia que dependa da existência ou posição de cada elemento inserido ou encontrado, tal qual a necessária para definir uma obra clássica do Renascimento ou do Barroco, como também do Modernismo. Desfaz-se assim o conceito de unidade absoluta como a apontada por Henrich Wölfflin (7). Ainda que o valor de cada parte seja absorvido pelo conjunto, as partes não estabelecem uma submissão ao todo, mas criam uma relação de interferência estética umas sobre as outras e trazem à obra um conceito, este sim único mas passível de mudança. Nenhuma das partes pode ser considerada como motivo menor pois participa igualmente da concepção do sentido final da obra.

O edifício-collage não pode ser lido como um todo indivisível sem que se percam algumas considerações importantes dos diversos significados que se cruzam e se resignificam por meio das distintas partes, o que determina que o caráter deste edifício provém da relação estabelecida entre estas partes. Os princípios compositivos extraídos das obras de arte de collage são identificados nos edifícios-collage com maior ou menor nitidez de obra para obra. A exploração dos fragmentos como unidades estéticas independentes é dos princípios que mais coadunam com a arquitetura de collage, juntamente com a aceitação da tensão existente entre os distintos fragmentos em contraposição à harmonia de uma possível unidade da obra.

A ênfase na relação entre as partes constituintes da obra é o argumento estético em que se respalda a poética desta arquitetura, que explora a diversidade, a beleza do inacabado e do imperfeito.

Ainda que o arquiteto do edifício-collage tente fazer prevalecer uma identidade aos elementos por ele criados dentro do universo da obra, a modificação do sentido destes elementos ocorre no momento da justaposição, uma interferência simultânea de valores acontece tanto nas partes preexistentes como nas novas a partir da sua coabitação. Obviamente que a identidade do autor da obra evidencia-se e se faz presente no edifício-collage, mas esta é enfatizada pela crítica que assim quer destacar a obra do autor, pois na leitura justa da obra como um ente independente de autor, a primazia do seu entendimento se dá na complexidade do jogo entre todas as partes, onde a poética da collage define-se no conjunto de relações entre as partes.

Considerações finais

A collage como técnica e, sobretudo como poética, é apontada como descoberta feita por Picasso e Braque durante a convulsiva fase da criação artística que estes dois artistas estabeleceram em comum, nos densos anos da primeira década do século 20. O impacto provocado por esta inovação criativa foi tomada, a principio, como mais uma intenção estética que se incorporava ao amplo espectro proporcionado pelo cubismo. O desdobramento desta atitude atinge, entretanto, proporções inimagináveis e vai tornar-se um experimento quase que obrigatório para todos os artistas que sucederam a este momento até os artistas da atualidade.

Na arquitetura a manifestação da poética da collage dá-se naqueles edifícios cujo caráter seja resultado da somatória de partes e de valores agregados que contribuem para a formação de um corpo arquitetônico que se distancia conceitualmente daqueles de nítido caráter unitarista.

A aceitação da estética da collage para a arquitetura permite uma compreensão mais ampla do ponto de vista conceitual e formal de uma família de edifícios de caráter híbrido e que tem na somatória de linguagens sua idiossincrasia, consequência  das referências cruzadas que se estabelecem a partir de seus fragmentos.

A correlação desta arquitetura com as artes plásticas permite esclarecer por novo viés a natureza das relações entre as partes distintas destes edifícios, adicionando nova dimensão a esta arquitetura. A collage em arquitetura propicia um novo diálogo entre o passado e o presente, passa pela ruína e reconstituição, pela ausência e memória, atenção e esquecimento.

notas

1
Este artigo é extrato do seguinte trabalho: CASTRO, Cleusa de. Collage: justaposição e fragmentação em arquitetura. Tese de doutorado. São Paulo, FAU USP, 2009.

2
ISCAN, Ferit. Asi se hace um collage. Barcelona, Parramón, 1985, p. 30.

3
KUSPIT, Donald B. El princípio organizador del arte en la era de la relatividad del arte. In: WALDMAN, Diane; JUNCOSA, Jordi (Org.). Mestres del collage – de Picasso a Raushemberg. Barcelona, Fundação Juan Miró, 2005, p. 248.

4
NESBITT, Kate (Org). Uma nova agenda para a arquitetura. São Paulo, Cosac Naif, 2006, p. 317.

5
SANTOS, Fábio Lopes de Souza. Modernismo e visibilidade: relações entre as artes plásticas e a arquitetura. Tese de doutorado. São Paulo, FAU USP, 2000, p. 101.

6
FRAMPTON,Kenneth. História critica da arquitetura moderna. São Paulo, Martins Fontes, 2000, p. 272.

7
WÖLFFLIN, Henrich. Conceitos fundamentais da história da arte. São Paulo, Martins Fontes, 1984, p. 203

sobre a autora

Cleusa de Castro é arquiteta (UFPR, 1985), especialista em Conservação e Restauração de Monumentos (CECRE-UFBA, 1988), mestre em Teoria História e Crítica de Arquitetura  (PROPAR-UFRGS, 2003) doutora em Projeto de Arquitetura pela FAUUSP (2009), professora dos cursos de Arquitetura e Urbanismo da UFPR e PUCPR. 

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