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architectourism ISSN 1982-9930

Museu das Missões, São Miguel das Missões RS Brasil. Foto Victor Hugo Mori

abstracts

português
Crônica de Abilio Guerra comenta show de Arrigo Barnabé cantando músicas de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, e lembra o início de carreira do músico no Lira Paulistana.


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GUERRA, Abilio. Das estradas da vida. Crônicas de andarilho 22. Arquiteturismo, São Paulo, ano 12, n. 136.05, Vitruvius, jul. 2018 <http://mail.irmaosguerra.com/revistas/read/arquiteturismo/12.136/7049>.


Sérgio Espíndola, Arrigo Barnabé e Paulo Braga, show no JazzB
Foto Abilio Guerra

Em uma hora e meia começa o show “E que Tudo Mais Vá pro Inferno”, capitaneado por Arrigo Barnabé. O músico londrinense beberica de um copo d’água enquanto Sérgio Espíndola, violinista, conversa com o pessoal da técnica, acertando retorno, calibrando graves e agudos. Mais adiante, posicionado ao lado da porta para os bastidores, Paulo Braga dedilha seu piano alheio aos ajustes finais para a apresentação. Na plateia formada por mesas e cadeiras do JazzB, pequena casa de show e bar na rua General Jardim, somente eu e a Silvana observamos os preparativos.

Arrigo fez parte da chamada Vanguarda Paulista, movimento de renovação musical que habitou a noite paulistana no início dos anos 1980. O ponto cardeal de aglutinação dos músicos alternativos era o Lira Paulistana, casa noturna na Praça Benedito Calixto, Pinheiros, que tinha em seu cast nomes como Itamar Assumpção, também de Londrina, Ná Ozzetti, Tetê Espíndola, Cida Moreira, Eliete Negreiros e grupos musicais como Rumo, Língua de Trapo, Premeditando o Breque. Lembrança involuntária, que surge enquanto observo os três músicos rumando para os bastidores após a passagem de som.

O celular avisa que demora uma hora para iniciar o show. Olho no entorno e percebo que continuamos solitários, exceto pela mesa do canto, agora ocupada por casal de namorados. Bem diferente de antigamente, quando nos aglomerávamos na frente do Lira, brigando por um ingresso; o espaço não era muito grande, cabia pouco mais de cem pessoas, e precisávamos chegar cedo para conseguir entrar. Diferente também do mesmo show que assistimos algumas semanas antes, no Sesc Vila Mariana, quando público formado por cinquentões e sessentões cantou, acompanhando o trio, as músicas do rei Roberto Carlos e do mais nobre membro de sua corte, Erasmo Carlos.

Chega minha caipirinha, legítima, de pinga e limão. Enquanto giro o canudo para misturar bem o conteúdo, os blocos de gelo estalam ao baterem entre si, chamam de volta coisas que aconteceram anteontem, nem quatro décadas se passaram. O sucesso enorme de público resultou no selo fonográfico alternativo Lira Paulistana, que enfrentou o monopólio das gravadoras gringas ao lançar os primeiros discos de toda a turma. As multinacionais do LP, poderosas e eternas, vencidas pela guerrilha subversiva da cena alternativa da Pauliceia Desvairada. Vivendo no firmamento onde brilha inútil as estrelas, Mario olhava de soslaio, com sorriso aberto, a nova constelação em formação, e a estrela que mais brilhava era Arrigo. Ele era o rei, ao menos era assim que imaginávamos ao viver aqueles momentos efervescentes.

Chegam os amigos e a mesa fica completa. Comento que o show é magnífico, a voz do músico está ótima, os instrumentistas que o acompanham têm talento que não se vê fácil por aí. Três são mais jovens – Marise, Helena, Giovanni –, não podem se lembrar das coisas mais antigas, mas a outra trinca presenciou as três criações soberbas do mestre de Londrina. Nelson, ainda jovem estudante, foi um dos produtores da primeira apresentação pública de “Clara Crocodilo” ocorrida na FAU USP, em 1980. Acompanhado pela banda Sabor de Veneno, Arrigo fusionou música popular brasileira, elementos da música erudita contemporânea – dodecafonismo, atonalismo... –, referências narrativas saqueadas do universo do quadrinho, apresentação teatral com personagens da marginalidade de uma metrópole pulsante, transbordante e neurótica, uma espécie de ópera pop aos moldes de “Tommy”, do The Who. Eu e a Silvana não assistimos à avant-première no prédio de Vilanova Artigas, mas a uma das montagens posteriores, no Sesc Pompeia, creio eu.

Giovanni, um dos jovens da mesa, sai para fumar. Ainda faltam trinta minutos para o início do show, saio também e me sento ao lado dele, no parklet diante do bar. Estrangeiro, meu interlocutor não conhece sequer a história de Arrigo Barnabé e da vanguarda paulistana dos anos 1980. Para mim, naqueles tempos, Arrigo era a grande novidade da música brasileira, um novo gênio que logo estaria no panteão ao lado de Caetano, Gil e Chico. Conto para o Giovanni sobre a segunda criação magistral do londrinense, “Tubarões Voadores”, de 1984. Eu assisti o show em São Paulo, logo nas primeiras sessões, mas o que marcou de forma indelével minha sensibilidade foi a apresentação posterior no Centro de Convivência de Campinas, ao ar livre no Teatro de Arena, com iluminação gótica iluminando no breu extremo os tubarões voando ameaçadores por cima da plateia extasiada. Cenografia de Elifas Andreato, enredo baseado em história em quadrinhos do cartunista Luiz Gê. Inesquecível.

“O que deu errado?”, me pergunta Giovanni. Penso por um momento, não sei o que dizer. Talvez eu tenha estimado errado seu potencial, mas eu não pensava isso sozinho, muita gente me acompanhava. Talvez a cultura de massa – a televisão em especial – tenha passado por mudanças estruturais, abandonando a qualidade em prol de padres, disc jockeys e sertanejos. Talvez Arrigo desistiu de buscar a fama e trilhou caminho mais silencioso, anônimo e qualificado, ao largo do mundo da informação rápida e descartável. Mas antes disso, seja qual o motivo do relativo ostracismo ao longo das décadas, ele cometeu a terceira obra prima, a trilha sonora para o filme “Cidade Oculta”, dirigido por Chico Botelho em 1986. Triller policial, personagens do submundo paulistano, protagonistas de primeira linha, como Carla Camurati, Cláudio Mamberti e o próprio Arrigo no papel de Anjo, um ex-presidiário que morava em barcaça que navegava as águas lodosas do rio Pinheiros. Olho nos olhos de Giovanni, noto que está verdadeiramente interessado no que tenho a dizer, mas sei lá o que ocorreu, o fato é que ninguém até hoje sentou ao lado de Caetano, Gil e Chico.

Retomamos nosso lugar à mesa, uma moça bem jovem apresenta os músicos para um público mínimo, os sortudos. Entre uma e outra música, Arrigo comenta que comprou seu primeiro LP aos quinze anos, o “Jovem Guarda”, gravado por Roberto Carlos em 1965. Dentre as músicas, “Quero que Vá Tudo pro Inferno”, agora título do seu show. No Sesc, gostei muito, mas a apresentação agora mais intimista me toca mais fundo, me envolve, me contagia. Chego a pensar que entendo os motivos das escolhas, que desvendo a cada letra, a cada estrofe, o acaso do seu percurso, do meu percurso, do percurso de todos nós.

Cantam e contam Roberto Carlos e Erasmo Carlos pela voz de Arrigo Barnabé: “Eu vi um menino correndo, eu vi o tempo brincando ao redor do caminho daquele menino”. “As coisas estão passando mais depressa. O ponteiro marca 120, o tempo diminui, as árvores passam como vultos, a vida passa, o tempo passa”. “Vejo caminhões e carros apressados a passar por mim. Estou sentado à beira de um caminho que não tem mais fim, meu olhar se perde na poeira dessa estrada triste”. “Estou a 130. As imagens se confundem, estou fugindo de mim mesmo, fugindo do passado, do meu mundo assombrado de tristeza, de incerteza”. “Na minha idade só a velocidade anda junto a mim, só ando sozinho e no meu caminho o tempo é cada vez menor”. “Estou a 140. Eu vou voando pela vida sem querer chegar. Nada vai mudar meu rumo nem me fazer voltar. Vivo, fugindo, sem destino algum. Sigo caminhos que me levam a lugar nenhum”. “Eu vivo muito só; se acaso numa curva eu me lembro do meu mundo, eu piso mais fundo, corrijo num segundo, não posso parar”. “O ponteiro marca 150. Tudo passa ainda mais depressa, o amor, a felicidade, o vento afasta uma lágrima que começa a rolar no meu rosto”. “Eu prefiro as curvas da estrada de Santos, onde eu tento esquecer um amor que eu tive e vi pelo espelho na distância se perder”. “Estou a 160. Vou acender os faróis, já é noite, agora são as luzes que passam por mim; sinto um vazio imenso, estou só na escuridão”. “Carros, caminhões, poeira, estrada, tudo, tudo, tudo se confunde em minha mente, minha sombra me acompanha e vê que eu estou morrendo lentamente...”

Sim, creio ter entendido as afinidades eletivas de Arrigo Barnabé, a beleza triste e encantadora presente nas letras das músicas selecionadas. Também entendi a exclusão da minha música favorita de autoria do Rei: “Fui abrindo a porta devagar, mas deixei a luz entrar primeiro. Todo o meu passado iluminei e entrei (e entrei). Meu retrato ainda na parede, meio amarelado pelo tempo, como a perguntar por onde andei. E eu falei (e eu falei): onde andei não deu para ficar, porque aqui, aqui é meu lugar. Eu voltei pras coisas que eu deixei, eu voltei”. Arrigo nos informa que nas estradas da vida o sentido é único, não tem mão para voltar.

[6 de julho de 2018]

notas

NA – Vigésima primeira publicação da série “Crônicas de andarilho”, com textos originalmente publicados no Facebook. Artigos da série:

GUERRA, Abilio. Cinco cenas paulistanas. Crônicas de andarilho 1. Minha Cidade, São Paulo, ano 15, n. 179.01, Vitruvius, jun. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/15.179/5561>.

GUERRA, Abilio. Dez cenas paulistanas. Crônicas de andarilho 2. Minha Cidade, São Paulo, ano 15, n. 180.02, Vitruvius, jul. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/15.180/5595>.

GUERRA, Abilio. Sete cenas paulistanas: a velocidade nas marginais e outros assuntos. Crônicas de andarilho 3. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 181.03, Vitruvius, ago. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.181/5637>.

GUERRA, Abilio. Sete cenas paulistanas: caipirice, regionalismo, erudição, cidadania, obra pública e mobiliário urbano. Crônicas de andarilho 4. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 183., Vitruvius, out. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.183/5735>.

GUERRA, Abilio. Dez cenas paulistanas: bicicletas, escadarias, caminhadas, rios ocultos, escolas, resiliência, diálogo. Crônicas de andarilho 5. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 185.02, Vitruvius, dez. 2015 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.185/5830>.

GUERRA, Abilio. Sete cenas paulistanas: lixo, lixeiros, orelhão, quadro com vidro trincado, estátuas urbanas, praia de asfalto e Mario de Andrade. Crônicas de andarilho 6. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 187.03, Vitruvius, fev. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.187/5932>.

GUERRA, Abilio. Memórias do futuro: sobre a recusa de se ver o óbvio. Crônicas de andarilho 7. Drops, São Paulo, ano 17, n. 103.02, Vitruvius, abr. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/17.103/5982>.

GUERRA, Abilio. Oito cenas paulistanas: política, política cultural e urbanidade. Crônicas de andarilho 8. Minha Cidade, São Paulo, ano 16, n. 191.03, Vitruvius, jun. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/16.191/6050>.

GUERRA, Abilio. Do nome das coisas: qual o motivo para mudar o nome do Elevado Costa e Silva? Crônicas de andarilho 9. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 193.06, Vitruvius, ago. 2016 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.193/6167>.

GUERRA, Abilio. Do vizinho: como Jacques Tati e Michel Foucault podem explicar a boçalidade do novo-riquismo. Crônicas de andarilho 10. Drops, São Paulo, ano 17, n. 112.06, Vitruvius, jan. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/17.112/6383>.

GUERRA, Abilio. Do higienismo: sobre as práticas urbanísticas do século 19 em pleno século 21. Crônicas de andarilho 11. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 198.04, Vitruvius, jan. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.198/6385>.

GUERRA, Abilio. Do gênero na fala popular. Crônicas de andarilho 12. Arquiteturismo, São Paulo, ano 11, n. 122.05, Vitruvius, maio 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/11.122/6540>.

GUERRA, Abilio. Do táxi. Crônicas de andarilho 13. Minha Cidade, São Paulo, ano 17, n. 202.05, Vitruvius, maio 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/17.202/6541>.

GUERRA, Abilio. Três crônicas sobre a arte e a vida. Crônicas de andarilho 14. Minha Cidade, São Paulo, ano 18, n. 206.05, Vitruvius, set. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/18.206/6712>.

GUERRA, Abilio. Do sadomasoquismo. Crônicas de andarilho 15. Drops, São Paulo, ano 18, n. 124.01, Vitruvius, jan. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/18.124/6820>.

GUERRA, Abilio. Do cordão de isolamento: ano novo, realidade arcaica. Crônicas de andarilho 16. Arquiteturismo, São Paulo, ano 11, n. 129.06, Vitruvius, dez. 2017 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/11.129/6822>.

GUERRA, Abilio. Do choro – entre lágrimas e música. Crônicas de andarilho 17. Minha Cidade, São Paulo, ano 18, n. 212.04, Vitruvius, mar. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/minhacidade/18.212/6923>.

GUERRA, Abilio. Da cavalaria de hoje e de antigamente. Crônicas de andarilho 18. Drops, São Paulo, ano 18, n. 126.06, Vitruvius, mar. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/18.126/6926>.

GUERRA, Abilio. Da inveja infame: a trajetória histórica de Lula e a viagem pela metrópole de um casal qualquer. Crônicas de andarilho 19. Arquiteturismo, São Paulo, ano 12, n. 133.03, Vitruvius, abr. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/12.133/6953>.

GUERRA, Abilio. Do andaime. Crônicas de andarilho 20. Arquiteturismo, São Paulo, ano 12, n. 134.04, Vitruvius, maio 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/12.134/6984>.

GUERRA, Abilio. Da dobradura. Crônicas de andarilho 21. Drops, São Paulo, ano 18, n. 129.05, Vitruvius, jun. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/drops/18.129/7033>.

GUERRA, Abilio. Das estradas da vida. Crônicas de andarilho 22. Arquiteturismo, São Paulo, ano 12, n. 136.05, Vitruvius, jul. 2018 <www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquiteturismo/12.136/7049>.

sobre o autor

Abilio Guerra é professor de graduação e pós-graduação da FAU Mackenzie e editor, com Silvana Romano Santos, do portal Vitruvius e da Romano Guerra Editora.

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